



Quando uma pessoa é boa, boa mesmo, só de olhar você já se sente bem, e um pouco depois já estamos com vontade de partilhar sua generosidade.
Imagina para quem viveu muitos anos com ela , como foi o caso dos habitantes de Santa Lina. Que saudade de dona Jacy Caldas, esposa do sr. Eloy Caldas, administrador geral da fazenda.
Quanto ela fez por nossa gente, não é ?
Sua história não teria beleza se não fosse um ingrediente que a fez feliz e hoje tortura de tanta saudade daqueles bons tempos. Este ingrediente foi sua vida em Santa Lina. Vamos conhecer um pouco de sua história ?
Seus pais eram de descendência européia. O pai nascido em Jardinópolis trabalhava como administrador. Sua mãe de Jundiaí, onde acabaram se conhecendo. Casaram-se em Campinas, tiveram dois filhos e em 1917 mudaram para Birigui (cidade do Estado de São Paulo, ao lado de Araçatuba) . Seu pai foi amigo de Washington Luiz.
Em 1924 nasceu dona Jacy, a terceira de 14 filhos.
Aprendeu desde cedo a dar valor nas pequenas coisas , nos pequenos detalhes. Seus pais ensinaram seus filhos a valorizar a liberdade e a fraternidade.
Em 1924, na época da revolução mudaram-se novamente para Campinas. Estando o Brasil numa crise muito grande, seu pai resolveu mudar-se para Itália, mas quando chegou lá recebeu voz de prisão por não ter a documentação correta e por não ser simpatizante ao governo fascista. A "máfia" bastante ativa em Cecília foi que ajudou-o fazendo passaporte falso e ele então voltou para Brasil deixando na Itália mãe e cinco filhos. Dona Jacy tinha 6 anos naquela época.
Foi nesta época que Dona Jacy teve sua primeira experiência com aquilo que seria um sonho de toda a sua vida :
Ser enfermeira;
Sua mãe, sozinha com as crianças, estava preparando o passaporte para retornar para o Brasil e um dia teve que deixá-la sozinha com os irmãos mais novos. Eles moravam na cidade onde existe o vulcão Etna e seu irmão acabou caindo de cara nas pedras vulcânicas que eram comuns em toda a cidade, machucando o rosto com os estilhaços . Como sua mãe não estava em casa , intuitivamente ou com o dom nato que Deus lhe deu, retirou todos os estilhaços de seu rosto , que até pareciam vidro, limpou e fez o curativo. Quando sua mãe chegou, ficou desesperada e prontamente levou o filho na farmácia. O farmacêutico nada fez senão elogiar o curativo e a limpeza que havia sido feita . Dona Jacy só tinha 6 anos !
Depois de um tempo seu pai acabou enviando as passagem e eles puderam regressar para o Brasil. A família pode se reunir novamente em 1927 na cidade de Birigui.
Em 1936 mudaram-se para Campinas novamente, local onde tinham parentes, e lá conheceram a família do sr. Eloy Caldas . Fizeram grande amizade. Não deu outra. Em 1938 dona Jacy começou namorar sr. Eloy e vieram a se casar em 1944.

Foto do sr. Eloy com amigos de Santa Lina
Sr. Eloy já trabalhava como administrador de fazendas e foram para o Paraná para um novo serviço na fazenda de seu irmão. Não tinham parentes, quase nenhum conhecido , época em que nasceu sua filha Marilze. Foram 2 anos e 8 meses sofridos. Dona Jacy não sabe explicar mas detestava o local. Tinha muito inseto e era muito isolado, uma tristeza total. Moravam vizinhos da fazenda do sr. Pinto Lima , parente de Dona Lourdes Giorgi, esposa de Orlando Giorgi, e naquela época o Dr. José Giorgi estava procurando um novo administrador para a fazenda em Quatá, visto que o antigo administrador da Santa Lina, o "seu Antonião", estava com problemas de saúde e deveria ser aposentado brevemente. Sabendo que dona Jacy não se sentia bem no lugar o irmão do sr. Eloy indicou-o como administrador substituto para a Fazenda em Quatá . No dia 1 setembro de 1949 sr. Eloy foi empossado como novo administrador geral da Santa Lina e dona Jacy ... a primeira dama. Dona Jacy ficou muito feliz, queria deixar o Paraná o quanto antes. Não se sabe o por que , mas quando viu sua casa azul anil pela primeira vez em Santa Lina já se apaixonou . Foi amor a primeira vista. Gostou do lugar , de sua gente e como ela mesmo diz : "Lá criei raízes profundas, lá era a minha vida, o meu mundo , o que eu sempre quis para mim , o que sempre amei". A fazenda era muito grande e predominava a plantação de café, arroz e algodão. Também existia a parte industrial, como as máquinas de beneficiamento e a tecelagem de algodão.


Dona Jacy várias vezes em nossa entrevista se emocionou e um nó na garganta não a deixava falar. Lembra-se com saudade de cada detalhe daquela época, de seus vizinhos, da dona Heleninha, da sirene das quatro e meia da madrugada e depois das seis horas da manhã chamando os trabalhadores . Conta também de sua outra grande paixão , o ambulatório, que era seu sonho desde criança, o de ser enfermeira. O ambulatório ficava onde era antigamente a escola. O Grupo Escolar somente foi construído depois em 1955.

Quando pensaram em montar um ambulatório para cuidar dos feridos da fazenda , e eram muitos, mesmo contrário a vontade do sr. Eloy, dona Jacy colocou-se como voluntária para tal. Não queria saber nem de salário. Seus ajudantes ganhavam mais que ela. Ela depois de 4 anos passou a ser registrada e ter um salário simbólico e era tão pouco, tão pouco que deixava para pegar o dinheiro uma vez só por ano, mas não reclamava disto, ela trabalharia lá de graça ou até pagaria para estar junto a seu povo. E dona Jacy tomou conta do ambulatório por toda a sua vida em Santa Lina. Mais tarde, foram contratados para ajudá-la o sr.João e depois o Flávio. Lembra-se deles com muito carinho e acha hoje em dia graça das maluquices que esses faziam. Um de seus funcionários, o Kika, um dia trocou a injeção indicada por conta própria. A receita era de vitamina e ele colocou no lugar o anestésico xilocaína. Hoje ela dá risada, mas no dia ela queria morrer. Graças a Deus o cidadão saiu ileso. E o Jesus, não o salvador, outro seu ajudante deitava na mesa e punha o cigarro no suporte de soro. Com ajudantes assim dona Jacy não precisava de inimigos. Ela lembra com saudade de todos eles. Foram 23 anos de sua vida dedicado ao povo naquele ambulatório, tinha muitos feridos devido ao corte da cana. A fazenda teve vários fiscais. Alguns deles eram sofisticados, granfinos. Algumas esposas desses fiscais sentiam-se a dona do mundo . Dona Jacy, a primeira dama, lavava os pés dos peões, e faria tudo de novo, era humilde , uma pessoa simples , ensinou naquela época os modos de higiene, e para as mães como cuidar de seus bebes, a regularização da vacinação na fazenda e muitas coisas mais.

Sr. Eloy sempre participativo. No extremo esquerdo, com o braço levantado, o Otávio e de óculos o Negrãozinho, Tininho, Sr. Antonio Assaiante, Sr. Eloy Caldas, Dejair, Odair do Mané Baiano, Dito Lima e Zezinho Barbosa.
EM TEMPO: quem se lembra do Otávio em 76 ou 77 no Cine Palazzi cantando: Boemia, aqui me tens e regresso...- foi um sucesso!
Dona Jacy cuidava e vestia os peões que passavam pelo ambulatório. Certo dia apareceu um garoto machucado e ele estava todo sujo. Ela deu banho no garoto , enrolou-o em uma toalha, cuidou de fazer o curativo, mas quando foi pegar uma roupa para ele , e eram roupas usadas , consertadas e limpinhas, não tinha nada que servisse ao garoto devido ao tamanho.
Decidida , pegou um saco de farinha já alvejado, cortou uma calça e como deixava sua máquina de costura no ambulatório , ali mesmo fez uma roupa nova para o garoto em minutos.
Coitado, era o melhor que se podia fazer no momento, mas mesmo assim quando o garoto estava chegando em casa, mancando, roupinha branca, de longe sua mãe não o reconheceu e quando chegou perto disse que ele estava lindo, e parecia um príncipe. Éh, o povo sempre retribuiu a ajuda de dona Jacy e este sempre foi seu melhor pagamento.
Eventualmente vinham o dr.Renato Monfort, o dr. Moaciar Nicácio e o dr. Floriano como médicos. Lembra-se de tantas coisas, do armazém, do seu nene Perini chefe do escritório, dona Zulmira...
Dificuldades
Como todo lugar , a Santa Lina também tinha suas dificuldades, mas lembra-se sempre da fartura do local. Tinham água a vontade. Tinha a granja que fornecia alimentos e ajuda na cesta básica.



Recorda-se do trem, do trolinho, puxado a cavalo que levava as pessoas das estação até perto da caixa dágua onde era o armazém velho. Moradia também não era fácil. Quando chegou a primeira professora em Santa Lina, Dona Iracema de Paraguaçu Paulista, não tinha onde morar e dona Jacy hospedou-a em sua casa. Antes era a "Escola Reunidas" e depois que passou a ser "Grupo Escolar". Mais tarde, outras três professoras também foram morar em sua casa.

Pé de manga
Quando chegou em Santa Lina e entrou no parque, bem em frente a casa patronal tinha um pé de manga mas tão carregado que aquilo foi para ela uma visão de dias melhores, dias de fartura, a sombra, as frutas , parecendo até que pé de manga a acolhia. Sempre que tinha uma fraqueza ou quando estava triste ia em baixo do pé de manga e sentia-se reconfortada, suas energias voltavam .

Dona Jacy sempre olhava para o simples , para o bonito do simples e para as coisas positivas. Certa época que viajou para o Mato Grosso, não para passear, para trabalhar, para cozinhar para os tropeiros e peões enquanto vacinavam o gado que os Giorgi tinham no Mato Grosso, viu uma teia de aranha no meio do rio , e os pingos de água do rio que ricocheteavam prendendo-se na teia, com o brilho do sol pareciam brilhantes presos na teia de aranha. Ficou paralisada vendo aquilo. Não esqueceu jamais desta imagem como uma das mais lindas que já viu. Para alguns uma coisa sem sentido, para ela um capricho da natureza impossível de imitar, a pureza sem limites.

Dona Jacy adorava mexer na terra. Plantou muita coisa em sua casa. Fez também uma plantação de tâmara e a primeira safra só foi dar 12 anos depois. Tinha paciência.
As varas de pesca
Sr. Eloy era um homem bastante severo , por outro lado muito justo. Sistemático tinha ciúmes de suas coisas. Sr. Eloy tinha um jogo de varas de pesca especiais, bem cuidadas, uma para cada tipo de peixe e eram tralhas de estimação.
Um dia , o ajudante de dona Jacy que trabalhava no ambulatório , o Flávio, pediu para ela emprestar as varas para ele pescar. Dona Jacy respondeu que não, temia a bronca do sr. Eloy, mas Flávio a convenceu, dizendo que quando ele chegasse do trabalho as varas já estariam no lugar e bem cuidadas. Ele nem ia perceber. De tanta insistência dona Jacy ficou com dó e emprestou mediante mil conselhos de cuidados e total segredo.
Quando Flávio estava pescando na represa proibida, junto com outras pessoas, foi surpreendido pelo sr. Eloy que chegou sem que eles pudessem notar, que enfurecido falou:
"- eu já falei que não quero ninguém pescando aqui, vocês não viram as placas, já cansei de avisar. Enquanto alguns correram , Flávio ficou estático. Sr. Eloy pegou as varas e quebrou-as no joelho, sem reconhecer que eram suas.
"Isto ,sr. Flávio, é para o senhor aprender a não pescar mais aqui." E foi embora.
De noite, quando chegou em casa.
- Jacy, onde estão minhas varas de pesca ?
Uéh, não estão aí ? Acho que roubaram !
Sr. Eloy morreu sem saber a verdade.
O começo do Fim
A fábrica de Proteina foi a razão da decadência onde a terceira geração da família, após a morte do dr. Rodolpho, resolveu investir em algo que não conheciam . Foi realmente uma tragédia. Começaram aparecer muitos dependentes na Fazenda, pois maridos morriam e as famílias iam ficando e morando lá, toda ela financiada pela Fazenda, até que quebrou e muita gente ficou sem fundo de garantia, sem seus direitos. É uma pena que tenham acabado tão mal. Quando saiu de Santa Lina o sr. Eloy já não estava bom de saúde, e resolveu voltar para Campinas e o motivo foi na verdade estar perto da filha e dos netos. Dona Jacy tinha os pais em Campinas e também sua filha Marilze, que já tinha deixado Santa Lina nos anos 60 para estudar. Dona Jacy não queria vir. Adorava e chora até hoje por Santa Lina.
