
utono de 1918, viu chegar a assinatura do armistício e com ela a PAZ há tanto tempo almejada.
Raiou para a reorganização de todas as nações que tinham sido assoladas pelo flagelo da guerra.
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m princípios de 1919, novas cartas chegaram do BRASIL e em uma delas do meu mano Antônio, voltava novamente a insistir em nossa ida para junto deles.Com a guerra terminada e em vista do BRASIL ter tomado parte para a mesma, as outras nações começaram a dar mais importância aquele país. Algumas organizações comerciais e mesmo industriais, pensavam em instalar filiais de produtos diversos e uma grande parte das populações rurais da Itália e mesmo da Alemanha e Portugal começaram a migrar para lá, esperançados em melhores dias por tratar-se de um país novo onde quase tudo estava por fazer e onde todos teriam melhores oportunidades.
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eu pai, adoentado e ainda recordando o que recentemente tinha ocorrido, de forma alguma concordava com a proposta de meus manos. Os dias iam passando, o Estevam que já contava 18 anos e estava prestes ao alistamento militar era o que mais insistia para a nossa ida. A Antônia com 21 anos, a Maria com 23, sonhavam também com novas terras, novas pessoas onde seus príncipes encantados surgiriam?! Eu então já me via nesse BRASIL imenso onde poderia continuar a estudar e chegar a ser alguém! Minha mãe queria a nossa felicidade e portanto acompanhava-nos em nossas pretensões e em todos os momentos que achava oportunos insistia com meu pai para que acedesse aos desejos de toda família. Em março desse mesmo ano, resolveu dar o consentimento desde que vendêssemos todas as propriedades e empregássemos a quantia apurada em propriedade rural no BRASIL. Dizia ele que se Deus lhe desse mais alguns anos de vida, faria dessa propriedade um novo FONTANHÃO! Devo dizer aqui que o FONTANHÃO, era uma propriedade que foi herdada por meu pai e que quando tal aconteceu não passava de um pantanal no inverno e no verão sem condições de irrigação pouco produzia. Com trabalho quase inacreditável de sua parte que se tornou em obsessão, transformou-a em um verdadeiro OASIS. A parte baixa foi toda drenada e um pequeno ribeirão que a dividia foi canalizado pela encosta com uma barragem e o antigo leito transformado em valadões, empedrado servia para o escoamento das águas que nas enchentes transbordavam do outro riacho. De área pequena, 6 ou 7 hectares, o produto ali colhido serviu para a manutenção de 15 pessoas com o auxilio de mais algumas propriedades menores.N
ão posso deixar de mencionar um fato que mesmo eu sendo uma criança, ficou para sempre gravado em minha mente . "Nos dias seguintes a resolução de meu pai, começaram a aparecer pretendentes à compra de nossos bens e em pouco tempo foram fechados os negócios de quase tudo o que tínhamos; residência, o PINHAL, a VINHA, os CASTANHEIROS e as terras que produziam trigo e centeio. Quando porém chegava o interessado na compra de FONTANHÃO, meu pai dava diversas desculpas e adiava o negócio.U
m dia ele me disse:-V
amos ao FONTANHÃO? Acompanhei-o e junto com ele percorremos por diversas vezes e em diversas direções a propriedade, parava olhava para continuar depois. Chegamos ao ponto mais elevado e daí contemplando tudo disse-me:-E
u venho despedir-me disto aqui e com olhar abrangeu a QUINTA toda! Agostinho você não têm lembrança do que era isto. Foi muito antes de você nascer que eu remodelei tudo e sempre tive orgulho e vaidade pelo que fiz e devido ao trabalho insano que aqui desenvolvi, perdi até a minha saúde. Não durarei muito pois sei que o meu corpo cansado e minado pela doença não poderá ir muito longe e é por isso que eu tomei a resolução de ir para o BRASIL, reunindo todos os filhos que ainda me restam e assim morrerei em paz!A
quele homem austero e que nunca dava mostras de franqueza, chorou e derramou lágrima na minha presença, dizendo:-V
im despedir-me deste pedaço de chão que faz parte do meu próprio ser; nunca mais aqui voltarei e fica aqui uma grande parte do meu coração. No mesmo dia chamou o MARTINS FONSECA para fechar o negócio e como fez algumas objeções, meu pai imediatamente falou que com ele Martins não faria mais negócio algum. O FONTANHÃO foi vendido no dia seguinte ao Sr. Manuel José que também tinha uma propriedade dividindo pelo lado Norte.![]()
aio do mesmo ano: comunicou-nos o agente que estava tratando de tudo, documentos, passagens, etc., que estivéssemos preparados pois a qualquer momento receberíamos ordem de partida! Um de nossos parentes da CASTANHEIRA, vindo despedir-se, trazia consigo um de seus filhos que por toda a "lei" fazia questão de me levar para passarmos alguns dias juntos e como não havia ainda data marcada para a partida, lá fui eu passando
15 dias deliciosos.
Os primos que eram 5, não sabiam o que me fazer e todas as vontades eram realizadas. Em uma Segunda-feira, recebemos recado de que deveria regressar imediatamente, o que foi feito. Quarta-feira seguinte lá vamos nós para a cidade da GUARDA onde permanecemos uns 20 dias. Foi aí que pela primeira vez assisti e conheci o Cinematógrafo como era chamado naquele tempo o CINEMA. Os filmes eram de procedência FRANCEZA e o primeiro filme era intitulado ZALLA - MORT e ZALLA VIE; que prazer que eu sentia e que "mundo novo" eu estava descobrindo! Viciei-me e desde manhã até a noite não fazia outra coisa senão conseguir o necessário para ir ao Cinematógrafo. Nesse tempo já desenhava regularmente e passava o dia desenhando os principais artistas do filme. Mostrava os desenhos às pessoas que estavam hospedadas junto à nós e diversas ocasiões ganhava o dinheirinho que dava para a entrada. A meia entrada que pagava era $20 reis e quando podia dispor de mais $10 reis, comprava rebuçados e chupava-os durante o espetáculo.
A
cidade da GUARDA é das mais antigas de Portugal e era sede de 2 regimentos de exército. O 12o de Infantaria e o 7o de Artilharia. Tanto em um como em outro havia diversos moços de minha aldeia e quando podiam tirar uma folgazinha, juntavam-se a nós e percorríamos as aldeias circunvizinhas. Foi na cidade de GUARDA que eu comecei a conhecer um pouquinho da "vida" que me serviria mais tarde para me descontrair, perante centros maiores como Lisboa e mais tarde Rio de Janeiro e São Paulo. Meus pais já um tanto idosos e pouco viajados, achavam-se como "peixes fora d'água": Nós porém, minhas irmãs, o Estevam e eu, gozávamos os primeiros dias de liberdade e vivíamos em "Mar de Rosas".E
m princípios de junho ainda desse ano, partimos para LISBOA pelo "comboio" (trem) da Beira Baixa e a minha curiosidade própria daquela idade, não me deixou "pregar olho" durante o trajeto que foi feito durante a noite. Ao amanhecer depois de termos percorrido as margens do Zêzere que tem sua nascente nas fraldas da Serra de Estrela ,antigos Montes Harmínios, e sua foz no Rio TÉJO, começamos a descer para LISBOA, passando por Santarém.C
omo era lindo o panorama que desfrutávamos! Tanto em uma como em outra margem, os olivas, trigais, que nessa ocasião já começavam a tomar a cor dourada do amadurecer, as pastagens com suas manadas de cavalos, vacas e bois. Os "Campinos" montados, com seus trajes pitorescos "piruteando seus animais", garruço vermelho na cabeça e suas aguilhadas compridas! Para quem nunca tinha saído de sua aldeia e para uma natureza lírica e um tanto poética que sem o pressentir já fazia parte da minha vida, tornava-se o espetáculo mais lindo que eu poderia ter imaginado! O Tejo começava a alargar-se e barcos de diversas espécies percorriam-no em todos os sentidos. Os casarios caiados de branco por entre tufos de verdura em uma e outra margem, cerejas, amendoeiras e figueirais já em pleno amadurecimento e cujos frutos eram "apregoados" nas estações por preços irrisórios! As laranjas vindas da outra margem eram vendidas a $20 reis por dezena; figos de "pé retorcido" a $100 reis o cento!S
empre fui guloso e meu pai nada recusou nessa viagem. Cheguei a Lisboa, "murcho" e abatido. Desembarcamos Lisboa na Estação Central do Rossio em pleno centro da capital e a despesa de hospedagem já estava incluída na taxa cobrada pelo agente. Ocupamos portanto apartamento em um dos melhores hotéis do centro - Rua Nova de Almada, no 64, 8o andar. Não havia naquele tempo prédios em Lisboa além de 10 ou 12 andares e por isso de onde ficamos, desfruta-se ótima visão do grande porto de Lisboa. Acha-se localizado dentro do Rio TEJO a 20km de sua foz no Atlântico, e é um dos maiores do mundo, cabendo em sua superfície todas as esquadras juntas da Europa!
o outro lado, os Bairros de Barreiro, Cacilhas e Almada. Que vontade louca se apossou de mim, de atravessar o estuário não tanto para conhecer a outra margem mas sim para ter o prazer de andar de navio. Tal ocasião chegou após 3 ou 4 dias de nossa chegada. Eu nunca tinha visto negros em minha vida; Quando podia fugir à vigilância de meus pais e irmãos, fugia para a praça fronteiriça ao hotel e ficava observando tudo o que me interessava. Os
automóveis ainda eram raros e os meios de condução eram as carruagens e bicicletas. Em uma dessas minhas "escapadas" fiquei perplexo ao ver descer de um belíssimo automóvel, 2 negros altos, um tanto gordo, elegantemente trajados e depois de terem pago ao chofer, dirigiram-se à portaria do hotel, o mesmo onde nós estávamos. A minha curiosidade foi tão grande que depois de observar a sua apresentação ao encarregado, imediatamente se apresentou ao carregador e transportando sua bagagem de diversas malas e pastas, o meu raciocínio disse-me que seriam pessoas importantes ou a menos muito abastadas.
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egui-os e para minha surpresa tomaram acomodamentos em frente ao nosso. Ao jantar, como eles ficassem em mesa próxima à nossa, olhava-os com curiosidade e mesmo um certo espanto, notei que uma dessas observações, trocaram algumas palavras em línguas desconhecidas e sorriram para mim. Deixei que meus pais se retirassem e me aproximei deles um tanto temeroso porém disposto a lhes fazer as perguntas. Antes porém, foram eles que num português esquisito e que eu mal compreendia, perguntaram se eu e minha família éramos lisboetas ou da província ? Disse-lhes que éramos da cidade de GUARDA na fronteira com a Espanha e que viajávamos para o BRASIL. Foi a minha vez de lhes perguntar de onde eram, o que os trazia a Lisboa e porque falavam diferente de nós? Responderam que seus avós tinham nascido em Angola Afro-Portuguesa, teriam sido aprisionados por um navio negreiro e levados para a América do Norte onde foram escravizados! Seus pais falavam a língua africana de Angola e também o português que lhe transmitiram já americanizado. Trabalhavam em plantações de algodão e já nasceram livres e como os antigos patrões teriam sido humanos e bondosos visto serem católicos irlandeses, continuaram trabalhando em suas terras e conseguiram com o produto de seu trabalho fazerem plantações próprias, conseguindo mais tarde uma fortuna relativa e instruções secundárias a toda família.E
ram irmãos e possuindo recursos, viajavam para conhecer as terras de seus ancestrais. De Lisboa partiriam para Loanda , Lourenço Marques. Passariam pelo Egito, Palestina onde visitariam em Jerusalém o Santo Sepulcro pois eram Cristãos Católicos. Passariam pela Itália, veriam Roma e regressariam aos Estados Unidos da América.F
iquei maravilhado com tudo o que me disseram e na minha ingenuidade acreditei cegamente na história que me contaram nunca soubemos se era ou não verdade. Queriam conhecer a minha família e fazer amizade com ela durante o tempo que permanecêssemos em Lisboa. Ao recolher-me, estando todos reunidos, contei a eles o que tinha ocorrido. Fui repreendido por meu pai e minhas irmãs por ter contado à eles o que nós pretendíamos fazer e só o Estevam concordou que se eles viajassem dessa forma deviam ser muito ricos, e Estevam e eu nada tínhamos a perder e faríamos amizade com eles e sairíamos a passeio em lugares que nós não teríamos possibilidade de freqüentar; eles pagariam tudo e nós gozaríamos à vontade.A
o almoço do dia seguinte, aproximaram-se de meu pai e disseram que tinha conversado comigo, que eu era muito inteligente e gostariam, se ele consentisse, com toda a família visitar os arredores de Lisboa e que meu pai não se incomodasse com despesas que eles pagariam tudo! Não conheciam ninguém na Capital e prezariam muito a nossa amizade. Conversaram com todos e no fim do almoço já tinham convencido o meu pai e o resto da família. Após o almoço fomos até a praça do Comércio ,Terreiro do Passo, tomamos um barco atravessamos o TEJO desembarcamos no Barreiro em duas carruagens fomos a Cacilhas e à tarde antes de regressar à LISBOA, levaram-nos a um dos melhores restaurantes ,creio eu, e mandaram servir um ótimo jantar.N
os dias que precederam eles convidaram-me , só eu e eles, para percorrer Lisboa. Tudo o que desejava em guloseimas eles me compraram: doces que eu nunca tinha visto, bananas que só vi em Lisboa, pois não tinha conhecido essa fruta antes, gasosas, pirolitos e como eles tomavam muita cerveja, quis também experimentar; Não gostei e fiz uma careta quando a provei . Eles riram muito do portuguezinho.M
eus pais e minhas irmãs nunca mais nos acompanharam, pois meu pai achava que seria abusar e quando era convidado dava sempre uma desculpa qualquer. Eu saía todos os dias com eles e não queria vida melhor; muitas vezes o Estevam nos acompanhava, porém eu notava que ele não se sentia muito à vontade por eles serem pretos. Nunca tive preconceitos de raça e como eles eram delicadíssimos para comigo e me satisfaziam em tudo o que eu pedia, tornei-me companheiro inseparável durante os dias que permaneceram em Lisboa. No último dia de sua permanência usei e abusei de sua hospitalidade e ao fim da tarde eles entraram num prédio aos rés do chão, penetrando em uma sala bem mobiliada. Discutiram em inglês entre eles e pelos gestos notei que um não aceitava o que o outro dizia chegando até a ameaçá-lo. Como eu já tinha 12 anos, apesar de ser meio caipira, desconfiei que não se tratava de uma casa de conhecidos como no princípio cheguei a imaginar. Na porta que dava para um corredor apareceu uma mulher de aproximadamente 40 anos, convidando-os a entrar e a mim indicou-me uma poltrona para que sentasse e esperasse. Momentos depois apareceu novamente e entregou-me uma moeda de $10 tostões, perguntou-me se saberia ir só para o hotel. Disse-lhe que sim e ela então me apressou a que fosse imediatamente pois não consentiam a entrada de menores naquele local. Pelas decorações da sala eu já tinha percebido que se tratava e imediatamente tomei o rumo do Hotel sem mesmo olhar para trás. Para economizar o dinheiro resolvi ir a pé e quando cheguei lá, meus pais tinham saído após o jantar e só estava o Estevam, a quem meu pai incumbiu de me esperar.![]()
Estevam estava hospedado em outro hotel porque o agente encarregado de seus "papéis" não era o mesmo que tratou dos nossos. Deixou recado na portaria que eu Agostinho, ficaria aquela noite com ele. No quarto que meu mano ocupava, dormia também um homem já de bastante idade que a chamado dos filhos residentes no Rio de Janeiro, ia ao seu encontro. Completamente surdo, não era uma boa companhia para o Estevam que nessa
ocasião contava de 18 para 19 anos. Moço vistoso e um tanto audacioso, andava de amores com uma das empregadas do hotel e o velhote atrapalhava-o de vez em quando em seus carinhos à bela portuguezinha , isto o Estevam me contou posteriormente, e já por diversas ocasiões tinha reclamado à gerência que o transferisse para outro local pois o velho roncava e era sonâmbulo, levantava-se durante a noite e perambulava por todo o quarto, não o deixando dormir. Ao chegarmos, o coitado do velhinho já dormia tranqüilamente e nós iríamos fazer o mesmo.
Esse dia que passou, foi o dia que mais guloseimas ingeri e diversos refrigerantes, frutas etc. Altas horas da noite, depois de sonhos os mais estrambólicos, acordei com uma aflição que me deu impressão de que ia morrer! Não tive tempo para avisar ninguém nem tão pouco para alcançar o banheiro. Ao levantar-me fiquei completamente tonto e só voltei a mim com os safanões que o Estevam me aplicava. Ao recuperar-me vi com espanto que a cama do velhinho que continuava dormindo, estava completamente coberta por massas pastosas e coloridas com pedaços de banana, ameixas e outros fragmentos com uma calda alaranjada, num colorido berrante. As minhas ceroulas , permaneciam no chão a um canto do quarto e pelo mau cheiro que exalavam compreendi tudo o que tinha acontecido.
Q
uando eu esperava a maior "bronca" do Estevam, notei em seu rosto a maior satisfação de sua vida. Perguntei:-V
ocê não está zangado comigo? Pelo contrário, disse ele. Esse velho vai me pagar tudo agora!Fiquei admirado !
-O
lhe, o velho não teve culpa ! Eu é que fiquei incomodado e não tive tempo, perdi os sentidos e aconteceu tudo isso aí!Estevam retrucou:
-Você não se incomode e "bico calado" que eu darei um jeito. Você vai ao banheiro, lave-se bem e venha deitar-se novamente. Não esqueça de lavar as ceroulas que depois me entregará.
-E
isto aqui nós não vamos limpar?-N
ada disso, essa prova de culpa.-Q
ue culpa, perguntei?-D
eixe tudo por minha conta e está encerrado o assunto.N
essa manhã vi o Estevam levantar-se e em altos berros sacudir o pobre velhinho que acordou muito assustado e com espanto olhava o que Estevam lhe mostrava; O resultado da minha indisposição daquela noite, acusando-o de tudo aquilo! O meu coração doía pela injustiça que estava cometendo e até hoje não me perdôo de tamanha maldade! Se eu falasse a verdade o que seria de mim? Já imaginaram a surra que eu levaria do Estevam? Foi à Gerência e disse: venham ver o que aquele porcalhão fez no meu quarto. Já não chegava os sustos que ele me tem dado com seus sonambulismo e agora a porcaria em que deixou o quarto. Se não tomarem providências falarei com meu agente e mudarei daqui imediatamente. Ainda assisti a mudança do velhinho que dizia não ter lembrado do que tinha acontecido. Levaram-no para um quartinho nos fundos do hotel e eu encabulado perguntava ao Estevam porque tinha feito aquilo ao pobre velho!-E
ngraçado, disse ele! O que queria você que eu fizesse? Que eu dissesse à arrumadeira que tinha sido você? O que eu pratiquei nada tem de mal. Ele ficará tranqüilo no quartinho dele e a mim deixou de me atrapalhar, ela é bem bonita, não achas?S
ó mesmo o Estevam, que Deus lhe perdoe!R
egressamos ao nosso Hotel e ao chegar, depois de uma repreensão de meus pais a quem nada contei do ocorrido, me foi dito que os nossos amigos pretos depois de perguntarem por mim com mostras de apreensão em seu rosto, souberam por meu pai que eu tinha pernoitado com Estevam. Aliviados, disseram a meu pai que estavam de partida, despediram-se e deixaram um abraço ao "portuguezinho" e pediam que os desculpasse, pois na véspera eles se tinham excedido na despedida de Lisboa. Meus pais e meus irmãos nunca souberam desta aventura com os pretos e só muitos meses depois do falecimento de meu pai, e em uma noite em que todos recordavam o passado, também tomaram conhecimento dessa tragi-comédia!
m 11 de junho de 1919 chega o dia, finalmente, de dizermos ADEUS a PORTUGAL e a última hora fomos informados por nosso agente que teríamos de partir separados, porquanto o acomodamento não permitia que toda família tomasse o mesmo navio. Nunca compreendi tal medida. Meu pai determinou então que ele, minha mãe e eu tomaríamos um, o Estevam e minhas manas outro e assim no mesmo dia, para grande alegria minha e a
tristeza estampada no rosto de meus pais ,aos quais pela segunda vez vi lágrimas em seus olhos, sulcávamos as águas do TEJO penetrando nas do Atlântico e aos poucos vimos pela última vez, desaparecerem as colinas de Sintra e Cascais, a linda praia do Estoril! As ondas enormes salpicam o convés do Navio , vai escurecendo e eu de forma alguma aceitava o recolher-me ao beliche de terceira classe! Quero também esclarecer que íamos para o BRASIL, com passagens e despesas por nossa conta; não éramos simples imigrantes, apenas nos transferíamos para outra pátria que seria a nossa e de nossos filhos!
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oite alta, o navio baloiçava progressivamente e ao tentar recolher-me, senti me tontear e mais uma vez repeti a sujeira do Hotel do Estevam! Durante três dias, fiquei meio inconsciente e sempre com enjôo. Minha mãe que também estava doente prestou-me os cuidados à seu alcance ajudada por uma linda moça que viajava com seus manos com destino ao Rio de Janeiro e que talvez por piedade, serviu-nos de enfermeira chegando até a fazer limpeza em minha cabeça onde eu peguei uns certos "bichinhos" inconvenientes. Recuperei-me completamente no sexto dia e comecei a tomar conhecimento com a marinhagem e demais meninos e meninas de minha idade. Havia bailes quase diariamente no convés e tomava parte cantando algumas cantigas e recitando poesias. Tornei-me amigo e conhecido de toda terceira classe.A
portamos na Ilha da Madeira, Cabo Verde e aí muitas mocinhas e rapazes escreviam à seus namorados e namoradas e como eu sempre gostei de desenhar, aproveitava papéis de embrulho que jogavam fora, deitava-me no convés e esboçava as cidades portuárias por onde tínhamos passado. Madeira e Cabo Verde, a Torre de São Julião da Barra em Lisboa. A curiosidade de alguns companheiros que me viram desenhar, levou-os a contar à seus familiares que eu desenhava muito bem! Daquela data em diante todos os que queriam escrever para Portugal, pediam-me que eu desenhasse "barquinhos, flores, corações atravessados por flechas etc.." Quase todos me presenteavam com moedas, frutas e bugigangas etc. Daí em diante nunca me faltaram as amizades, principalmente junto à juventude e aos marujos que na maioria era nordestinos, e, mais uma vez o apelido de portuguezinho me foi dado por todos. O navio pertencia ao Lloyd Brasileiro chamava-se AVARÉ e tinha pertencido à Alemanha, tendo sido entregue ao Brasil por dívidas de Guerra.N
esse navio vinham mais de 1.200 portugueses, famílias completas e mocidade solteira. Entre essas famílias destacou-se uma delas, da cidade de Gouveia que também pertencia ao Distrito da GUARDA. Trataram de minha mãe e meu pai que durante quase toda a viagem estiveram adoentados. A Lucília, menina de 11 ou 12 anos, cabelos e olhos muito pretos, de uma vivacidade extraordinária, era a minha companheira predileta e desde manhã até a noite, permanecíamos inseparáveis. Os pais dela diziam para os meus que daríamos um ótimo casal, pena que eles já vinham com destino o que ficariam morando no RIO DE JANEIRO, onde tinham muitos parentes. Ainda não sabia o que era amor mas sentia por essa menina, qualquer coisa muito diferente do que amizade dispensada aos outros e eu tinha certeza que ela correspondia a tais sentimentos como mais tarde deu provas, quando da despedida no RIO, chorou copiosamente.T
eria sido esse o meu primeiro romance?