oi em uma noite de julho que convidado por Dona Maria, cunhada de meu patrão, visitamos a família Joaquim Jorge Estevam, onde residia em sua chácara localizada na saída do povoado (QUATÁ) para a Fazenda Santa Lina.

Já antes do ocorrido tinha feito amizade com o chefe dessa família Joaquim Jorge Estevam, assim como sua esposa Dona Maria da Encarnação Jorge, casal muito agradável e que demonstrava grande estima a todos que freqüentavam sua casa. Era uma família grande, simples e trabalhadora, desenvolvendo serviço agrícola em suas propriedades. Viviam abastadamente e raros eram os dias que não almoçavam ou jantavam diversas pessoas que por este ou aquele motivo sempre lá estavam nas horas das refeições. Mais tarde ficavam para os ajuntamentos da mocidade de Quatá que para lá também se dirigiam, principalmente aos sábados, e então improvisava-se um pequeno conjunto musical.

O José Rodrigues com sua clarineta, o Alfredinho Santoro com seu violino, um dos seus filhos, o Joaquim, em seu violão revezando-se com o João Vilão. Era ao som desse conjunto executando polcas, mazurcas, valsas e rancheiras que nós dançávamos, falávamos de amor e enfim namorávamos!

Que saudades eu sinto ainda hoje dessas noitadas de sábados! O cafezinho e os bolinhos de fubá fritos e quentinhos feitos por Dona Encarnação, eram deliciosos. Agora que já expus o ambiente da casa, voltemos à minha primeira visita junto com Dona Maria, o filho Manoel Paixão e também a outra filha Mariquinha que contava 3 anos e que eu carreguei de "cavalinho".

Fomos recebidos com grande alegria por todos os quais se encontravam com outras pessoas descascando espigas de milho aos quais nos juntamos e ficamos até às 11 horas da noite. Foi nessa noite que tive a oportunidade de começar a "flertar" assim meio de longe com a filha mais velha nos seus pujantes 18 anos, mais gordinha do que magra, enfim o tipo que eu apreciava! Simples mas um tanto manhosa quanto a namoro e muito disputada pelos moços da época, tendo até sido pedida em casamento pelo meu patrão Julio Paixão e recusado por ela.

Não me deu grande atenção, porém fez estourar dentro de mim um sentimento que não sabia se já era amor ou apenas um capricho de competição com outros pretendentes. Despedimo-nos, insistindo eles para que voltássemos sempre e ao darmos as mãos, aproveitei e apertei fora do normal a mãozinha que ela me estendeu e não sei se foi minha impressão mas achei que fui correspondido! Até hoje ela diz que não fez tal coisa, será? O que eu sei é que no dia seguinte sob o pretexto de ir buscar um pão feito em casa por Dona Encarnação, enviei lá o Manuelzinho para lhe entregar uma carta, carta esta que já pedia resposta, a qual respondeu um pouco friamente e desconfiada, porém que não me desiludisse, e que com o tempo , após nos conhecermos melhor, poderia acontecer. E aconteceu!

Depois de ter afastado todos os concorrentes, enfrentei o pai dela que não se conformava com a idéia do casamento da filha com um "moleque", contudo conquistada a mãe foi muito fácil porque desde que me conheceu foi com a minha cara. Tornamo-nos namorados firmes, novos e em 16 de janeiro de 1926, realizava-se o casamento civil, cujas bodas se prolongaram por 3 dias, Sábado, Domingo e Segunda-feira! Foi um festão tão grande que devido aos preparativos o trabalho intenso fez a coitada da noiva ficar doente!

Por motivos diversos interrompi a anotação de minhas memórias por nove anos e só agora em 1984, resolvi reiniciá-las.

oltando ao ponto de meu casamento que como já foi anotado, realizou-se em 16 de janeiro de 1926 e por mero acaso seria mais tarde decretado feriado e considerado o dia do município de Quatá. O casamento religioso só se daria um mês mais tarde, visto o Padre Faria da Paróquia de Conceição de Monte Alegre, não ter podido comparecer no dia combinado. Se houve pecado ele, o padre, seria o devedor. Um ano antes aproximadamente tínhamos combinado , eu e meu cunhado Manoel Maria Gil de Oliveira, que após o meu casamento passaríamos a ser sócios na casa que ele iria construir para este fim, sendo que a construção e o capital para a instalação da futura casa comercial seria por conta dele e eu o filho dele, David Gil de Oliveira, apenas entraríamos com o trabalho, administração, etc.

Devido a esta combinação, comuniquei ao meu patrão Júlio Paixão a resolução de que me demitiria em 31 de dezembro de 1925. No entanto a construção do prédio, devido à dificuldade de material e mesmo de "mão-de-obra", não ficou pronto para a data marcada e talvez levasse mais de 6 ou 7 meses para se concluído, desisti desse combinado e empreguei-me na firma José Alves de Freitas, estabelecido quase em frente, visto o sr. JÚLIO PAIXÃO, já ter contratado outro para o lugar que eu vinha ocupando. Não me sentia muito bem no novo emprego e eu tinha pretensões a trabalhar em firmas maiores e cidades mais desenvolvidas.

Incumbi para esse fim um amigo "Viajante Comercial", para que logo que soubesse de alguma firma importante que pagasse um ordenado conveniente, me avisasse rapidamente. Poucos dias após, me comunicou que em Presidente Prudente, tinha uma firma já instalada, porém desejava aumentar o estabelecimento com uma seção de tecidos, e que eu fosse lá e verificasse se servia ou não. Fui, vi e gostei. O chefe era o patrício Sr. Amadeu Paulo Morgado. Simpatizei-me com ele a primeira vista. Combinei tudo com ele e dali a alguns dias voltei inicialmente só para auxiliar no balanço de fim de ano de 1926.

Em janeiro próximo mudei-me com minha esposa que se achava em estado de gravidez muito adiantado e em 7 de fevereiro de 1927, dava à luz uma linda menina que receberia o nome Eugênia , porém na intimidade, Jenny, como é conhecida até hoje. Em 22 de dezembro de 1928, nasceria mais uma menina que foi registrada com o nome de Flávia e que viria a falecer 11 meses depois vítima de KRUP pois não havia naquela época medicamento para essa espécie de doença. Em 16 de outubro de 1930, nasceria o nosso 3o filho que recebeu o nome de Jayme. Portanto Eugênia, Flávia E Jayme são prudentinos.

Durante 4 anos que lá residimos, tivemos de tudo, da alegria à tristeza, tudo o que acontece nessa vida. Lá faleceu um meu cunhado com 16 anos, vítima de tifo e a nossa querida Flavinha.

A grande depressão por qual passou o Brasil que começou após a Revolução de 1924 e que só veio normalizar-se após a Revolução de 1932 e que atingiu quase todo o comércio e indústria principalmente a lavoura com a queda dos preços de café que chegou a ser vendido pelo cafeicultor ao preço de $7800 reis o saco de 40 quilos (em côco) e ainda tinha a quota de sacrifício que o lavrador tinha que entregar para ser queimado a $2000 reis o saco. Após 16 de outubro, data do nascimento do nosso filho Jayme, e após o término da revolução desse mesmo ano, vencida pelos revolucionários, tomava posse presidência da República o Sr. Getúlio Vargas como chefe do Governo Provisório. Foi uma derrocada total e quem tinha compromissos a solver, poucos foram os que conseguiram resolvê-los. A firma onde eu trabalhava que possuía terras, madeiras, serraria e uma grande casa comercial, foi à falência apesar de todos os esforços possíveis. Eu que tinha aproximadamente investido a quantia de $40 contos de reis, nada recebi e tive que voltar para Quatá, procurar novo emprego.