

omo em todas
as Aldeias portuguesas, o PEROFICÓS
acha-se engalanado para a celebração da MISSA DO GALO! Há mais de uma semana que a
mocidade da Aldeia, carreiam para frente da Igreja, (Terreirinho) toras de carvalho e de
pinheiros para o tradicional "FOGO DE NATAL" !

Foto atual de Peroficós - 2002
A mocidade das aldeias disputavam entre si, como competição, qual braseiro que perduraria por mais tempo, mesmos que as borrascas de chuva e de neve caíssem com violência, o que é muito comum nessa época do ano; Os moços rodeavam o mesmo com seus "porretes" ferrados e levam para lá diversas vasilhas com o gostoso vinho que iam bebericando, acompanhado das saborosas lingüiças que assavam no borralho.
A casa da família Conde, mesmo em frente à igreja, prepara-se também como outras e a "Tia" PALMIRA, como era chamada por todos intimamente, apesar do seu estado bastante adiantado de gravidez, toma todas as providências necessárias para que a consoada seja perfeita, ainda mais que o chefe acompanhado de seus dois filhos mais velhos ANTÔNIO e JOSÉ, estão sendo esperados da Província de Trás-os-Montes, onde trabalham na construção da Estrada de Ferro, que mais tarde ligaria a LINHA DO DOURO a BRAGANÇA. Em suas conversas, já tinha dito às vizinhas que estava prevendo uma festa dupla para a família.
Pela tarde com a chegada dos esperados e logo em seguida os que se encontravam em seus afazeres diários, eis toda família reunida se abraçando e dando a boas vindas, aos que há mais de três meses, se encontravam ausentes.
Após a ceia, trajando suas roupas domingueiras, bem agasalhados com seus capotes e xales de lã, movimentam-se para assistirem à missa! Minha mãe, há diversas horas novata às dores costumeiras que antecedem o parto, chamou meu pai e disse:
-MANOEL, creio que será esta noite, pois estou notando os primeiros sinais. Vá você com os meninos e eu fico com a MARIA para que me ajude a "olhar" o DOMINGOS, em caso de necessidade!
-Bem, nesse caso então ficarei também;
-Não creio que ainda demorará, portanto você vais e se houver novidade, pedirei a tia DELFINA ( vizinha ao lado) que mande alguém te avisar.
Foi ouvir a MISSA mas não estava sossegado; logo que terminou, veio imediatamente e já encontrou minha mãe, acompanhada das vizinhas que tinham ficado para alguma eventualidade, fazendo companhia para o que fosse necessário. Mais alguns momentos e eis que deu a luz a mais um rebento que seria o último, o décimo terceiro filho que receberia o nome de Agostinho, Agostinho Conde, tendo nascido à uma hora da manhã no dia 25 de dezembro de 1906.
Termina aqui, a parte que me foi contada por meus irmãos mais velhos e minha mãe, sendo que meu pai nunca entrou em detalhes dessa natureza comigo. Daqui em diante procurarei transcrever o que minha memória pode guardar.

m 1910, tenho vagas
recordações de ver na Torre da Igreja, um cobertor vermelho hasteado e uma aglomeração
de pessoas enraivecidas protestando e procurando saber quem teria sido o autor de tamanha
infâmia! Só alguns anos depois soube que naquela data, tinha sido proclamada a
REPÚBLICA em PORTUGAL, que o descontentamento de terem hasteado aquele cobertor vermelho,
foi devido a que a população da aldeia na sua quase totalidade era monárquica e queria a todo
custo, saber quem teria sido o anarquista autor de tamanha ofensa aos brios monárquicos
de todos.
Em 1911, meus manos ANTONIO e JOSÉ, convenceram meu pai a autorizá-los a partirem para o Brasil ou Argentina e que após 4 ou no máximo 5 anos eles estariam de volta, talvez ricos, e assim ajudariam os manos mais novos e mesmo toda a família! Como toda a mocidade daqueles tempos, estava na moda saírem do país, porém sempre pensando em regressar, logo que a situação financeira o permitisse; se voltariam ou não, só Deus o sabia e a maior parte quase sempre ficava, normalmente os solteiros que acabavam contraindo casamento e aí poucos e só depois de velhos, o faziam para matar saudades. Contavam naquela ocasião, Antônio, 24 anos e José, 22. A lembrança que tenho deste episódio, é de quando das despedidas que fizeram casa por casa na Aldeia, eu os acompanhei sem mesmo saber o que estávamos fazendo.
No ano seguinte ou seja em 1912, meu mano Joaquim, regressa da vida militar da cidade de ELVAS no ALEM-TEJO, e a minha recordação foi de admiração por ser um moço garboso e muito simpático, alto pois media 1,80 metros exímio cavaleiro, visto Ter pertencido à guarda especial "Lanceiros da Rainha". Admirava-o tanto que onde ele ia, eu estava grudado e como eu era o dodói por ser "caçula", faziam-me todas as vontades!
Em 1913, Antônio e José que tinham ido para a Argentina, já se encontravam no BRASIL, pois uma crise de trabalho naquele país e não encontrando serviço em sua profissão que era carpintaria, resolveram transferir-se, fixando residência na cidade de OURINHOS - Estado de São Paulo e que naquele tempo não passava de um pequeno povoado. Escreveram a meu pai pedindo-lhe que autorizasse o mano Joaquim a ir ter com eles e que para isso enviariam o dinheiro referente às despesas da passagem etc. Meu pai consentiu e levou ao conhecimento de que deveria partir quanto antes, pois já se falava que estava prestes a rebentar uma guerra na Europa de grandes proporções e que se tal acontecesse, ele Joaquim, seria um dos primeiros a ser chamado.
Um certo Domingo, ao regressarmos da igreja onde tínhamos assistido à missa da manhã, minha mãe entrou no seu quarto e de lá voltou se lastimando e em voz baixa, conversava com meu pai sobre qualquer coisa, o que só mais tarde compreenderia a que se referiam. Meu mano Joaquim tinha namorada que residia na Aldeia de MARMELEIRO-MONTE BRAZ e naquela noite, lançou mais do dinheiro que tinha sido enviado para sua ida ao BRASIL, em seguida dirigiu-se à casa da namorada e realizou o casamento imediatamente, somente no civil, pois já tinha anteriormente preparado todos os documentos secretamente, sem participar as famílias do que estava ocorrendo, visto não ser da vontade de nossos pais. A noiva Maria Cândida Thomé, moça linda e muito insinuante, realizou assim como meu mano Joaquim, o sonho de que a muito almejava.
Meu pai desgostoso com o acontecimento, dizia que não o considerava mais como filho e que nunca iria a casa dele. Passaram-se alguns dias e meu pai enviou-lhe um recado que só aceitaria sua visita, depois que realizassem o casamento religioso. Meu pai não quis assistir e lembro-me muito bem que juntamente com minha mãe, seguiram para cerimônia, as manas Maria e Antônia e eu, montados em jumentos. Foi a primeira "festa" bonita que lembro-me de assistir: contava nessa época seis anos.
Depois deste episódio, e após o casamento religioso, meu pai fez as pazes com eles e como receava uma futura guerra, procedeu a venda de uma propriedade - CAISNABADAS - destinando o produto da venda às despesas da viagem do casal JOAQUIM CONDE e MARIA CÂNDIDA com destino ao Brasil, fixando residência na cidade de OURINHOS, Estado de São Paulo, onde se encontravam os manos Antônio e José.
Meus pais recebiam cartas mensalmente do Brasil, principalmente do mano Antônio que sempre teve mais censo de responsabilidade, correspondência essa que nos deixava ao par do que se passava e em uma das missivas convidavam o restante da família a que arrendássemos nossas propriedades por um espaço de 5 ou 6 anos e transferíssemos nossa residência para o Brasil, país em grande desenvolvimento, principalmente na produção do café e ao cabo desse tempo, regressaríamos todos talvez com haveres para aumentar nosso patrimônio. Meu pai e minha mãe, questionavam quanto a essa viagem, sendo minha mãe partidária à nossa ida imediata e tentava convencer meu pai a concordar com ele, alegando que se ficássemos em Portugal, cada vez estaríamos mais pobres e além do mais que talvez não veríamos mais os filhos ausentes; dizia-lhe ainda que adoentado como ele estava precisando de tratamento dispendioso, o que seria muito mais fácil com a família reunida do que uns cá e outros lá. Estávamos no ano de 1914 e eu já compreendia muita coisa e andava "doidinho" de vontade de viajar de COMBÓIO (trem) e de NAVIO. Quando ia com minhas manas à estação da CERDEIRA, ficava deslumbrado com a passagem do COMÓIO e ficava pensando: Será que algum dia viajarei ao menos até a cidade de GUARDA?
Em um certo Domingo, regressando de minhas brincadeiras com meus colegas, o CÂNDIO da "tia Maria da Cruz, o Manuel "PÉ" - Pereira -, a Delfina, a Ana e o Manuel do "tio" CAIRRÃO, notei grande alvoroço em casa e depois de perguntar ao mano Estevam o que estava acontecendo, disse-me: vamos todos para o BRASIL e o pai já arrendou o FONTANHÃO, as VINHAS e as TAPADAS DA RANGINHA. Pagaram um ano do arrendamento adiantado e com esse dinheiro dá para as despesas da viagem. O Estevam, tinha 14 anos nessa data e já compreendia tudo melhor do que eu. Não almocei nesse dia. Saí como um rojão, procurei os companheiros para lhes dar a grande novidade e fazer-lhes inveja, pois naquele tempo a maior ambição dos portugueses da classe média e baixa, era a de poder viajar para o exterior normalmente para o Brasil. Mal sabia eu que dali a poucos dias iria pagar tal alegria com grande tristeza e expor-me escarno de todos.
Sei que era uma Terça-Feira, não me lembro de que mês, e meu pai mandou-me a CASA do senhor ABEL FONSECA, pedir-lhe o jornal - "O SÉCULO" que ele assinava, e, meu pai servia-se dele para ficar a par das notícias. Após alguns momentos depois da entrega do jornal a meu pai, notei um grande espanto e curioso perguntei:
-O que é pai?
-Uma grande desgraça acaba de acontecer. A Alemanha declarou guerra à França da qual Portugal é aliado por causa da Inglaterra e corremos o risco de que a mesma envolva toda Europa e mesmo a América!
-Onde é a América, perguntei a meu pai;
-A América, meu filho, fica do outro lado do mar e é dividida em duas: América do Norte e América do Sul; é na do Sul que está localizado o BRASIL onde estão o Antônio, José e Joaquim e é para lá que nós iremos, passar uns cinco ou seis anos; depois se Deus quiser, voltaremos novamente ao nosso Portugal. Fiquei pensando em tudo aquilo, como seriam os tais alemães, os russos, os americanos ! Os franceses, eu já conhecia uns dois ou três que dirigiam as minas de volfrâmio e procuravam outros minérios nas proximidades das nossas aldeias; eram um pouco mais ou menos como nós, mais corados, quase vermelhos e o cabelo de um loiro esbranquiçado. Fui procurar o Cândido e o Manuel Pé e dando uma de sabido, disse-lhes que a Guerra já estava na Espanha e a qualquer momento, ouviríamos os tiros do Canhão! (do Peroficós à Fronteira com a Espanha, eram apenas 15 quilômetros). Acreditando na minha própria mentira e aí começaram a aparecer em mim as qualidades ou defeitos de ser um tanto sonhador, subíamos o Monte do Calvário e ficávamos observando a raia, (divisa) à espera de avistar as tropas marchando, o que para nós seria uma grande festa.
Passaram os dias e mesmo meses, nada da guerra aparecer e eu perguntava a meu pai porque a guerra não chegava; ele com um sorriso triste dizia: ai meu filho, vamos pedir a Nosso Senhor, não permita que tal aconteça! A guerra destrói tudo por onde passa, os amigos tornam-se inimigos, a fome e a peste, são companheiras inseparáveis da GUERRA e os que não morrem no Campo de Batalha, padecem às doenças, poucos escapam a tamanha desgraça! A tua bisavó, a avó da tua mãe, era mocinha, quando os franceses invadiram Portugal a mando de Napoleão Bonaparte que nesse tempo era Imperador da França. Perseguida por diversos soldados franceses, penetrou numa caverna nos PAINAIS que qualquer dia te mostrarei e ali permaneceu dois dias e duas noites sem comer nem beber, até que os parentes junto com moradores da Miuzela, a encontraram lá completamente desfalecida.
Fiquei um pouco pensativo e perguntei em seguida que, se ela estava lá dentro da cova, como a descobriram? Disse-me então que quando ela penetrou nessa toca, que ela já conhecia, sabia que os soldados de tamanho muito maior que ela não caberiam na entrada e nesse caso estaria salva. Com a pressa caiu-lhe o lenço, deduziram então que estaria lá dentro e talvez até já morta. Uma menina, sua companheira, e um mocinho que tinha sido pastor guardador de carneiros e ovelhas e que também conhecia aquela cova, prontificaram-se a entrar e procurá-la.
Momentos depois, voltava a menina à boca da cova, dizendo que ela Maria estava lá dentro e parecia morta! Recebeu então a ordem para que ela e o mocinho arrastassem-na até a saída, visto eles homens não caberem na abertura. Fizeram e cumpriram essa ordem e depois de tê-la retirado notavam que ainda respirava.
Transportada imediatamente para a Miuzela, recebeu os socorros de um farmacêutico, visto não existir médico no local. Os dentes estavam completamente cerrados de uma forma tal que foi necessário a ponta de uma faca para os entreabrir e despejarem pequena quantidade de água com o auxilio de uma colherinha. Conseguiu aos poucos voltar à vida, porém só depois de três ou quatro meses, desapareceu o terror de que ficou possuída .
Contava nessa data 14 anos e começava a desabrochar para a feminilidade quando passado um ano é que foi se restabelecer por completo, quando teve coragem de contar aos pais o que lhe havia acontecido. Aqui vai a descrição feita por meu pai:
"Estava junto a mais duas companheiras e um colega, guardando gado, quando notaram a chegada de quatro soldados franceses , e que logo identificaram pelas botas e tricórnio que os mesmos usavam. Um deles que tinha divisas e que parecia ser o comandante, cumprimentou à todos e perguntou se tinham vinho na botelha (cabaça). Atemorizados disseram que sim e entregaram a vasilha que continha o vinho e eles beberam até a última gota. Perguntaram ainda se a Miuzela estava muito longe e o mocinho que estava com elas, tremendo de medo, disse-lhes que ficava a 3 ou 4 quilômetros de distância. Só o que parecia comandante é que falava em português, os outros conversavam com ele na sua língua e nós não entendíamos nada do que diziam. Quando já se retiravam, um dos que não falavam português, voltou e começou a olhar para sua bisavó convidando um companheiro para voltar. O comandante falou com eles rispidamente e eles não quiseram obedecer-lhe, chegando mesmo a um gesto de apontar-lhe o fuzil. Notaram então que o três, combinaram resistir ao comandante, e este seguiu só depois de terem discutido. Os três ficaram e um deles que também já falava com certa dificuldade a língua portuguesa, dirigiu-se à sua bisavó, dizendo-lhe que era a mais bonita e que devia acompanhá-lo. Tremendo, concordou e aproveitando uma distração dele, fugiu, sendo perseguida por ele e um outro que o acompanhava. Conhecendo o terreno melhor do que eles, não lhe custou muito despistá-los e lembrando-se da "COVA DA RAPOSA", para lá se dirigiu. Duas ou tez horas depois, ela os ouviu chamarem pelo seu nome;
-Maria ! Ô Maria ! Pode sair que os franceses já foram embora!
Sorrateiramente veio até a saída da cova e olhando para cima, viu a ponta das botas dos franceses. Quase desfalecida , arrastou-se novamente para dentro, tapando a entrada com algumas pedras soltas para evitar a entrada de bichos e rezando pediu a Deus e Nossa Senhora que lhe valesse em tamanha aflição. Dormiu, acordou, tornou a dormir ... perdeu a noção das coisas arrastou-se mais uma vez até a saída, porém a chamada do francês não lhe saía dos ouvidos e cheia de pavor entregou-se com o ato de contrição nas mãos de Deus, desfalecendo de fome e sede. De nada mais se lembrou até voltar a si , já no leito e rodeada de muitas pessoas. As duas mocinhas e o mocinho escaparam da seguinte forma: Ao serem perseguidos pelos dois soldados o moço conseguiu despistar o que tinha ficado de guarda, guarda este que dirigia aos companheiras palavras em francês acompanhadas por gestos indecorosos!
Fugiu até um certa distância e armados de um monte de pedras conseguiu acertar algumas nele; então o soldado correu em sua perseguição e enquanto isso, as mocinhas conseguiram desaparecer de sua vista. Esconderam-se por entre os rochedos e só durante a noite, depois que eles se retiraram, partiram para Miuzela onde já encontraram os familiares alarmados, dizendo que Maria Pinto, talvez tivesse sido levada por eles. Juntou-se ao povo da aldeia e com tochas de resina acesas vasculharam o local do desaparecimento, não conseguindo encontrar pista alguma. Voltaram à aldeia e novamente durante todo o dia continuaram a busca que foi infrutífera. Novamente regressaram à Miuzela, sendo que as próprias autoridades francesas que naquele tempo ocupavam aquela região, tomaram conhecimento do fato e destacaram diversos soldados e um sargento para a devida busca! O mocinho que tinha sido o companheiro dela acompanhou sempre a busca e foi ele que descobriu o lenço da MARIA pendurado num pequeno arbusto, talvez levado pelo vento! Foi quando comunicou a descoberta aos demais e ainda foi ele que se lembrou que deveriam penetrar na "COVA DA RAPOSA". Vê aí meu filho um pequeno episódio de uma Guerra, vivido na nossa própria família!"
Fiquei deveras pensativo e meu pai ia se retirando quando eu novamente perguntei: - Pai, se os soldados eram franceses e não conheciam a minha bisavó, como o soldado que a perseguiu a chamou de Maria?
- Pela tua pergunta, respondeu meu pai, noto que prestaste muita atenção na história e eu vou dar-te a explicação. Nessa guerra com a França, Portugal foi invadido por forças francesas por três vezes; uma grande parte dos soldados que tinham tomado parte nas outras invasões, eram escolhidos para fazerem parte dessa que foi a terceira e última visto terem sido derrotados pelas tropas ANGLO-PORTUGUESAS na batalha do BUSSACO. Sabiam falar o português e conheciam que a maior parte das mulheres portuguesas tinham o nome de Maria e por isso o soldado que à perseguiu a chamou por esse nome. Fiquei satisfeito e não falei a meu pai que muitas vezes eu já tinha penetrado na "COVA DA RAPOSA" nos PANAIS, onde tínhamos uma pequena propriedade nas proximidades. Esta história mostrou-me em parte o que seria uma GUERRA e na primeira oportunidade, juntei-me ao CÂNDIDO E MANUEL PÉ, a quem contei tudo e não voltamos mais ao MONTE-CALVÁRIO para esperar as tropas invasoras vindas da Espanha, o que felizmente não aconteceu.
Meses depois meu pai recebeu uma carta do BRASIL, enviada pelo mano Antônio e dizia que deveríamos aguardar por mais algum tempo a nossa ida para o BRASIL, que devido a GUERRA alastrando-se por diversos países e que já se falava que até o Brasil teria que entrar se os Estados Unidos da América do Norte tomassem partido e que os alemães estavam inventando uma espécie de navios que andavam por baixo da água e que punham os navios a pique e dizia ainda: os senhores já pensaram se ao vir para cá, o seu navio for bombardeado? Grande tristeza se apossou de meus pais e de todos nós. Eu principalmente, como me apresentaria na frente dos colegas? Depois de tamanho espalhafato que eu tinha feito, como explicar? Ao encontrar-me com eles dei-lhes a triste notícia e eles em vez de me "gozarem" ficaram alegríssimos, pois devo dizer , toda família era muito estimada e se de vez em quando havia alguma encrenca com os vizinhos, não passava de divergências como se fossem entre irmãos.

m fins de 1914, eu já tinha perdido parte dos manos: MARIA 1a
e ANTÔNIA 1a ,cujos os nomes foram dados às que vieram
posteriormente, e também JOAQUINA , DOMINGOS e FRANCISCO, o único que tenho uma
leve recordação. O Domingos faleceu quando eu teria uns dois anos; a Joaquina, Maria e
Antônia (primeiras), muito antes de eu ter nascido.
A família atual era portanto composta de 10 pessoas: meu Pai, minha Mãe, os manos Antônio, José, Joaquim, Maria, Antônia, Estevam, Germana e eu, Agostinho.
Com as propriedades arrendadas, ficamos numa situação desesperadora, sem terras para plantios e nesse caso não teríamos colheitas; o Estevam que já era um mocinho, empregou-se durante um ano em casa de uns tios em VILA FERNANDO. A Antônia, também já com 17 anos, fez o mesmo com parentes da QUINTA DO MEIO. Ficaram em casa, meus pais, a Maria, Germana e eu. Meu pai dava aulas particulares a noite à pessoas adultas e eu aproveitava as mesmas para me alfabetizar, a Germana que também tinha onze anos também fazia o mesmo e a Maria dedicava-se à tecelagem de linho que depois de tratado e devidamente enrolado em peças de 20 metros era vendido nas feiras mensais da Miusela, Sabugal, etc.
Assim atravessamos aqueles dois anos. Ainda no transcorrer desses dois anos amargos, lembro-me que meu pai empreitou diversos serviços e entre eles a montagem de pastos, e enquanto eles trabalhavam, eu me divertia chapinhando em peças de água estagnada que existiam nas imediações. Colhi portanto ótimos resultados: a maleita tomou conta de mim e por mais de três meses em dias alternados, um frio terrível apossava-se de mim e não havia cobertores que me agasalhassem, para momentos depois um calor terrível substituir, e a febre tomava conta subindo até 40 graus. Não havia tratamento por meio de injeções. O quinino era o único medicamento indicado. O apetite desapareceu por completo e nos primeiros dias ainda, ingeria algum alimento de minha preferência, entre eles eu apreciava o omelete, porém comi tanto, que mesmo depois de recuperado, passei aproximadamente cinco anos sem poder comer ovos de qualquer espécie.
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stamos em 1916 e
Portugal, como era aliado da Inglaterra, foi chamado a intervir militarmente na guerra. A
mocidade de 22 a 30 anos concentrou-se na Base Militar de TANCOS para receber preparo
especial e 3 meses depois, seguir para os Campos de BATALHAS na Flandres. A Guerra nessa
ocasião estava no auge e as tropas aliadas - INGLATERRA - PAÍSES BAIXOS - França e
Portugal tudo fizeram para conter os
PRUSSIANOS que marchavam sobre PARIS ! Em 9 de abril de 1917 o Marechal GOMES DA COSTA comandante em chefe das forças portuguesas, pessoalmente na frente, deu ordem aos seus comandados para resistir a todo custo para evitar a queda da Capital Francesa, e mais uma vez ficou comprovada a disciplina e a valentia do soldado português. As alas de direita e esquerda compostas de tropas Inglesas e Francesas, atacadas com todo o poderio dos inimigos, viram-se obrigadas a debandar fragosamente para a retaguarda, sem tempo para comunicar ao comando português o que estava ocorrendo. Os alemães voltaram então toda sua força sobre as linhas defendidas pelos portugueses que, resistiram, até novamente os aliados se recomporem e voltarem à luta que foi decisiva com a vitória das forças aliadas. Aliás foi a primeira vitória alcançada, repercutindo em todo o mundo e a primeira esperança de que os aliados não perderiam mais a GUERRA. No entanto a Portugal, apesar do heroísmo e valentia com que suas forças se houveram, órfãos e viuvas, mães e irmãs, ficaram para sempre marcadas com os horrores que só as guerras com a incompreensão egoísmo e ambições provocam, levando os povos à destruição! Meu Deus, onde estão os direitos humanos que todas as gerações pregam?
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m princípios de 1918, eu
com 10 anos feitos e com instrução primária completa, diariamente procurava o senhor
Abel Fonseca, nosso vizinho para que depois de lido o jornal por ele, fizesse o favor de
me o emprestar e tanto eu como meu pai o líamos, e assim ficávamos ao par do noticiário
mundial. Falava-se então em vitórias e mais vitórias das tropas aliadas, e, também se
comentava que estava prestes o armistício de logo após o término da guerra.
Em fins do verão, setembro ou outubro desse mesmo ano começou o regresso das FORÇAS PORTUGUESAS! Grande alegria em nossa aldeia e os rapazes que se portaram galhardamente na FRANÇA, foram recebidos com grandes festas da parte da população e o carinho e o amor de seus familiares. Felizmente voltaram todos os que tinham partido, sãos e salvos, com excepção do Antônio Pires que estilhaços de granadas quase inutilizaram um dos braços. No entanto com essa grande alegria também chegou a gripe "ESPANHOLA" que assolou toda a Europa, fazendo quase tantas vítimas como a própria guerra que tinha terminado. Pagamos a nossa alegria juvenil dos seus 17 anos, no dia seguinte à sua chegada, caía na cama para não mais se levantar! A mana Maria que foi das primeiras a ser atingida pela epidemia, já se recuperava e aí chegou a vez de minha mãe, a mana Antônia, o Estevam. Faltavam ser atingidos eu e meu pai. Quando meus manos conseguiam a cura e eu já me sentia vaidoso por não ser atingido, eis que uma certa manhã, dores de cabeça e vontade de vomitar tomaram conta de mim e tive que concordar que eu não tinha sido preservado, para satisfação do Estevam, que a toda a força não queria que eu passasse ileso e comentou:
-Bem feito, achas que és melhor do que nós?