
m Setembro ou Outubro de 1920, meu
mano Antônio, com o dinheiro que tínhamos trazido de
Portugal, comprou o lote de terra, um sítio em Pau
D'Alho, hoje Ibirarema, no bairro de Ribeirão Vermelho,
onde toda a família foi residir. Logo nos primeiros dias
fizemos amizade com um comerciante português, tinha que
ser, onde passamos a comprar o necessário e meu mano
Antônio combinou com ele para eu trabalhar de balconista
a $50 mil reis mensais. Era um ordenadão, comida, cama,
roupa lavada e passada etc.
Um patrão de verdade. Devo a ele a arte de comprar e vender assim como o trato com as pessoas em todas as camadas sociais. Enérgico, mesmo rude quanto era preciso. Lá aprendi as primeiras regras de estruturação mercantil e após praticamente quatro anos já conhecia todos os segredos desse trabalho, o que muito me valeu na minha vida futura.
O tempo foi correndo, meu mano Antônio não se acostumou com o serviço da "roça" e passou a trabalhar em seu ofício que era carpintaria. Foi acometido de tracoma, doença de olhos importada da ITÁLIA e era comum ver famílias completas de colonos italianos, acometida desse mal. A cura era muito difícil e as pessoas mesmo que sarassem ficavam marcadas para sempre com os olhos apertados e um tanto baços. Para o tratamento teve que ir para São Paulo e aí depois de "sarado" começou a vender jóias no Interior do Estado.
Meu mano Estevam não quis também ficar no sítio e foi trabalhar em tiragem de madeiras e construção de casas na Fazenda Santa Lúcia localizada nas proximidades da cidade de Xavantes até seu casamento em 1923.
A mana Maria casou-se em 1924 com Manoel Maria Gil de Oliveira, viúvo de 41 anos, madeireiro, pessoa conceituada e estimada em toda a região. Tinha dois filhos do primeiro matrimônio, os quais tinham chegado recentemente de Portugal:
Manoel e David;
O primeiro casado também recentemente, o segundo , David, tinha sido telegrafista e possuía uma cultura além do regular, apesar de ele ser mais velho sete anos, formou-se entre nós uma amizade sincera e nossos gostos de literatura e mesmo teatrais, foram a causa desse relacionamento.
O casamento de minha mana marcou época: o 'PÉ DE BODE" do " Chico Muzetti" ficou o dia todo por nossa conta e nós já meio "franguinhos" naquele tempo, aproveitamos à vontade com as mocinhas de nossa idade , 14 ou 15 anos . Aproveitamos e fomos a Campos Novos, Palmital e Salto Grande. Eu que em Ourinhos já tinha tido um namorico com a filha de um comerciante português da Ilha da Madeira, de nome João Rodrigues e amigo de meus manos, comecei nesse dia um romancezinho com uma menina chamada Esther, a qual me fez sofrer bastante durante o tempo de nosso namoro! Ela era muito disputada por sua alegria, charme e outras coisinhas mais. Como eu era um tanto romântico, escrevia e enviava-lhe versos de minha lavra, entre outros um que está na minha lembrança:
Esther, minha Esther
Esther do meu coração
Ainda chegará o dia
De beijar a tua mão
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Com esse e outros versos acabei por conquistá-la e a cidadezinha na camada juvenil, ficou sabendo que eu tinha "veia" poética e comecei a destacar-me nos meios mais intelectuais. Devo dizer que eu com 15 anos representava ter 18 ou 19. Dos 13 aos 15 cresci e tornei-me fisicamente o que seria já um moço normal e isso me fazia entrar em qualquer reunião e mesmo os professores me procuravam para companheiro!
Nesses dias, chegou a Pau D'Alho, (Ibirarema), uma família bastante numerosa a qual tinha comprado a fazendinha de Josué Gil de Oliveira. O chefe, Alexandre Simões de Almeida, gostava muito de teatro amador e já tinha sido diretor de grêmios desse gênero em outras cidades, foi quando convocou uma reunião e já no Domingo seguinte comparecemos ao prédio do cinema local, de propriedade de CARLOS IACK. Ficou determinado que a título de experiência, devíamos comparecer os escolhidos naquele dia, aos ensaios e só depois de experimentar os que melhor se adaptaram aos papéis distribuídos, ficariam definitivamente. Para contentar a maioria seriam ensaiadas 2 peças: UM DRAMA E UMA COMÉDIA.
No primeiro ensaio, depois de algumas observações, fui escolhido para dois papéis, um no drama e outro na comédia. O drama intitulava-se "PROCÉLA E BONANÇA", a comédia não me lembro mais do título. Como o autor da peça se chamava BATISTA DINIS, por unanimidade foi proclamado o mesmo nome para o GRÊMIO. Vinte ou mais anos depois, ainda estava em plena atividade e alguns filhos dos fundadores faziam parte do elenco. As famílias Dalla-Déia, Zatoni, Caram e Simões de Almeida, foram as que mais contribuíram para o desenvolvimento dessa arte que tanto bem fez à juventude daquela cidadezinha. Escolas só existiam as primárias e mesmo assim muito deficientes, foi portanto uma iniciativa útil servindo a todos que faziam parte e mesmo aos assistentes para seu desenvolvimento futuro. A minha memória era tão boa que tendo um dia esquecido a livro da "PEÇA", disse ao "PONTO": Não precisa ir buscá-la, eu vou fazer o "PONTO", sei toda a peça de cor!. O ensaiador duvidou e eu ofendido, entrei no alçapão e fiz o prometido. Foi uma admiração geral e daí em diante, fui sempre aquinhoado com os melhores papeis, dos cômicos que eu vinha fazendo, passei para os centro dramáticos onde me sentia à vontade.
Voltando aos meus namoricos, a Esther muito namoradeira, resolvi não lhe dar mais confiança e voltei-me para Teresa filha de um comerciante, família grande e de destaque político na cidade. Era uma moreninha de uns 13 anos aproximadamente e que estava começando a desabrochar para bela moça que infalivelmente deveria tornar-se mais tarde. Tímida, de uma simpatia extraordinária, aproveitávamos todas as festinhas para nossos "flertes" e algumas palavrinhas mais íntimas, e assim nosso namoro durou pouco mais ou menos um ano. Durante esse tempo tornei-me "almofadinha" , assim que era chamado os rapazes de minha idade, o que se trajava melhor nos dias de Domingo ,bem entendido, porque durante a semana havia dias que mais parecia um guardador de porcos!
Terra roxa, ruas enlameadas, Pau D'Alho, localiza-se em terreno muito plano e durante o período das chuvas não havia escoamento para as águas pluviais, ficavam estagnadas até quando sol as secava naturalmente. Quem não soubesse pisar, lá ia de escorregar e nesse caso, iria tomar um banhozinho de bacião e trocar outra roupa o que nem sempre acontecia, em geral as calças continuavam as mesmas, só a camisa se substituía. No tempo seco então, aquele pó fino entrava por todo o lado, orelha, nariz, olhos e boca. Aos Domingo, porém o negócio mudava de figura e depois das 2 horas da tarde, o comércio fechava suas portas e o resto do dia era bem aproveitado em Futebol ( apenas assistente) que como não podia treinar por não ter tempo, também não me deixavam jogar. A noite um cineminha ao qual assistia sempre ou quase sempre de graça, em troca dos cartazes que eu pintava de propaganda dos filmes, principalmente dos "farwests", estrelado por Tom Mix, Willian Hart e outros mais, que no momento me fogem à memória.
Também foi em um circo de cavalinhos, os quais visitavam a cidade periodicamente, que terminou o meu namoro com a Tereza ! Há muito tempo que a Maria Rita, filha de Bernardino Luiz Ferreira, e cujo estabelecimento comercial do qual era proprietário, localizava-se em frente à Casa Pedrosa onde eu trabalhava, vinha-me assediando constantemente para que eu a namorasse. Até uns tempos atrás achava que era uma pirralha que nem sinais de transformações para tornar-se moça e por isso não lhe dava atenção alguma, pois a Tereza era muito mais desenvolvida e atraente. Há mais de meio ano que quase não reparava nela e quando a olhava era sempre com ares de desprezo. Naquela noite, estava eu na arquibancada aguardando o início do espetáculo, quando notei que duas mocinhas sentavam-se ao meu lado e reparando melhor, vi que era Maria Rita e a irmã um pouco mais nova. Maria Rita teve a ousadia de me empurrar e dizer-me:
-Mesmo contra a minha vontade, como a Tereza não veio, ela me incumbiu de lhe fazer companhia por ser eu a sua melhor amiga.
Gostei do desembaraço e comecei a olhá-la com certo interesse. Notei também que durante o ano que passou a sua transformação tinha sido radical. Tarde demais, estávamos apaixonados.
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Amigos leitores, a história foi interrompida aqui e parte do texto provavelmente perdida. Vou tentar junto aos meus parentes levantar informações sobre o que aconteceu neste curto período, mas por dedução, me parece que o tio Agostinho teria recebido uma proposta de trabalho e teria que se transferir para Quatá - SP. Como ele menciona que deveria acompanhar sua mãe, algo me leva a deduzir que seu pai , Manoel Conde , muito possivelmente teria morrido nesta época.
No texto abaixo me parece ser o momento que o Dono da Casa Pedrosa deixa as "portas abertas" se um dia o tio Agostinho quisesse voltar ao mesmo tempo mostra a dor de deixar sua amada Maria Rita.
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... no entanto você já fica prevenido que, se por qualquer motivo as coisas não dessem certo, a qualquer tempo o seu lugar estaria sempre ao seu dispor.
Vendo ele ,(dono das Casas Pedrosa), com os olhos marejados de lágrimas, eu comecei a soluçar e fui acometido de um choro que não parava mais! Como ele me estimava , eu senti tamanha dor interna que pensei não passar mais!
Contudo, mais para ficar junto a minha mãe do que por outros motivos, aceitei e comuniquei ao Sr. Paixão que no próximo mês, isto é, em abril de 1924, começaria a trabalhar com ele.
A Rita reprimida pelos pais, só raras vezes escondidamente falava comigo na casa da Izabel Caram, cujos pais eram proprietários do único hotel da cidade. Numa dessas ocasiões, expus a ela os meus projetos futuros quanto à nós dois, que eu iria para Quatá e em um ano ou dois tornar-me-ia comerciante ou sócio de meu patrão e aí estaria em condições de me casar com ela.
Ela disse-me que resistiria o mais possível pois era a mim que ela amava. Daí a uns dias, após esta conversa parti para Quatá e ainda me correspondi diversas vezes por intermédio de sua amiga Izabel que recebia cartas e lhes entregava. A última que recebi me deixou completamente desesperançado. Dizia-me:
"A minha vida não pode mais continuar assim. Se você estivesse em condições de casar já, então eu enfrentaria tudo, pois é a você que eu amo".
Respondi que então fizesse o que a sua família queria visto de minha parte ser impossível não só pela minha situação de ainda não lhe poder dar o conforto de um lar e também à minha pouca idade , pois nesse tempo ainda não tinha 18 anos. Soube que daí a 2 ou 3 meses ela se o casou. Termina aqui o primeiro romance importante de minha juventude.

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vinda
para Quatá e início de meus trabalhos na CASA PAIXÃO.
Júlio Paixão meu patrão, era uma pessoa de 34 anos,
ainda solteiro, um tanto reservado quanto a mim, isto
talvez pela diferença de idade. Só ficava na CASA
COMERCIAL nos fins de semana, isto é, sábados e
domingos, segundas-feiras já se retirava para a
fiscalização de sua propriedade em Rancharia e aos
madeireiros que trabalhavam por sua conta em diversos
locais.
O estabelecimento comercial ficava a meu cargo como chefe e mais dois auxiliares, além do GUARDA-LIVROS que vinha uma vez por semana, da cidade de Assis cede da COMARCA. Quatá, apenas era Distrito Policial e pertencia ao Município de CONCEIÇÃO DE MONTE ALEGRE que abrangia toda a região até PRESIDENTE PRUDENTE e também à que hoje chamamos PAULISTA NOVA, desde Pompéia a Panorama às margens do Rio Paraná. De minha família, residia aqui em Quatá, a minha mana Maria, minha mãe e o mano Antônio, todos na fazenda Belo Horizonte. Até julho de 1924, levei uma vida rotineira, fazendo contatos com os habitantes da cidade e procurando amizade com as famílias que chegavam diariamente, principalmente lavradores que vinham desbravar suas propriedades, trazendo consigo empregados, etc., cujo interesse de minha parte era principalmente conseguir que eles fizessem parte de nossa freguesia.
Quatá naquela época prometia muito e foi traçada para ser uma grande cidade, ficando como intermediária entre ASSIS e PRESIDENTE PRUDENTE. Ruas largas, praças diversas e um sem número de coisas planejadas que outras cidades da região não possuíam. Mais adiante citarei as principais causas que contribuíram para que Quatá não alcançasse o lugar que de fato merecia. ( ou veja na www.quata.com.br ).
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M Julho de 1924 ,a estrada de ferro
Sorocabana, era a única via que nos ligava com a cidade
de São Paulo e as demais de toda região de Sorocabana,
não havendo estradas de rodagem para esse fim. Existia
apenas a "Boiadeira" que precedia de Santa Cruz
do Rio Pardo, passando por Campos de São Matheus, tendo
seu término em Porto Tibiriçá nas barrancas do rio
Paraná. Esta estrada que foi construída sob a
administração do então
"capitão" Francisco Witaker no trecho de Conceição de Monte Alegre até o Porto Tibiriçá, para o escoamento de gado vacum, procedente do Estado de Mato Grosso e deixou de servir a esse fim tão logo os trilhos da Sorocabana alcançaram o hoje chamado Porto Epitácio, localizado um pouco acima de Porto Tibiriçá. Antes de se abrirem outras, as quais teriam início de 1925 em diante, o povo desta região usava-a precariamente por estar quase abandonada e ser muito tortuosa.
Estas anotações servem apenas para dar idéia às pessoas que me lerem, a situação das dificuldades dos homens daquele tempo que enfrentaram estas paragens sem outros recursos a não ser a sua coragem de desbravadores, trazendo para cá, seus filhos quase todos menores e aos quais não podiam nem dar instruções primária. Deixemos isto para os historiadores e voltemos às minhas memórias.
Sendo a Estrada de Ferro o único meio de comunicação e intercâmbio comercial, por ali recebíamos tudo e tudo enviávamos por ela: mercadorias, cartas, telegramas etc. Naquele tempo além dos trens de carga, que já iam e voltavam diariamente da Capital até Presidente Prudente, também um trem de passageiros era ponto obrigatório das pessoas de certa representação. Lá estas pessoas se encontravam na plataforma da estação nos horários em que o trem passava para comentar sobre novidades, política, custo de mercadorias e mesmo mexericos da vida social os quais provocavam muitas vezes discussões das mais ferrenhas e chegando mesmo às vias de fato. Eu então não podia faltar de maneira alguma, pois a nossa firma era responsável pela correspondência, visto não possuirmos ainda CORREIO e todos os dias ali em frente ao estabelecimento, ao ar livre, eu e outro auxiliar líamos os nomes das pessoas a quem vinha dirigida a correspondência, se após a leitura do nome da pessoa respondia "PRESENTE" entregava-se a carta ou o jornal, se ninguém respondia, as cartas e jornais eram guardados num caixão que ficava colocado em cima do balcão do estabelecimento onde mais tarde eram procurados pelos interessados sem responsabilidade de nossa parte.
Foi em um desses dias de julho que por intermédio do telegrafista da estação, soubemos a notícia de algo de alarmante se estava passando em SÃO PAULO! Guarnições do exército aquarteladas na capital do estado, ter-se-iam revoltado contra o governo e bombardeavam os quartéis da FORÇA PÚBLICA DO ESTADO, fiéis ao então governador Dr. CARLOS DE CAMPOS, o qual já teria deixado São Paulo e estava com todo o secretariado na cidade de Boituva.
Começaram aí todas as dificuldades para nós. Ninguém sabia ao certo o que se estava passando e eu com toda a juventude "torcia" a favor das forças revolucionárias, cujos boatos sobre o heroísmo de seus comandantes e comandados nos enchiam de entusiasmo!