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m 28 de junho de 1919, ao
entardecer, demos entrada na grandiosa baía de GUANABARA
e quando aportamos em frente à praça MAUÁ fiquei
deslumbrado com a beleza da cidade, iluminação férica
e a todo instante pipocavam os rojões que o povo, em
comemoração às vésperas do dia de São Pedro,
possuído de alegria em festa tão tradicional fazia
subir ao espaço. Que lindo dia aquele! Meus pais que já
tinham se recuperado, também


... faziam parte nesse júbilo. Parte da marinhagem e os passageiros na sua totalidade, improvisaram um desfile ao som de uma batucada que um grupo de marinheiros carioca executava. Foi a primeira festa por mim assistida de confraternização Luso-Brasileira ! Os portugueses não tinham o bambuleio do samba e misturavam com o ritmo do fado, tornando a festa mais pitoresca! Ninguém dormiu naquela noite e ao despontar o sol do dia 29, fomos surpreendidos com um espetáculo jamais visto por nós! O verde escuro das matas que cobriam os morros, o resplendor do sol que batia nas fachadas do casario de suas encostas, o "Pão de Açúcar", o Corcovado e do lado oposto a cidade de Niterói, levou meu pai a exclamar, "mas isto aqui é um verdadeiro Paraíso! Para morrer tranqüilo só me resta reunir todos os meus filhos e netos e abraçá-los!
Soubemos mais tarde que nosso navio não atracaria no "CAIS" imediatamente, que o faria nesse dia à tarde. Quem não quisesse esperar, poderia desembarcar em lanchas particulares. Também devo dizer que o nosso navio não seguia para o porto de Santos e os portugueses que se dirigiam à São Paulo, teriam de fazê-lo por estrada de ferro, de trem.
Procuramos informações se o navio em que viajavam meus manos, já teria chegado ao Rio, recebendo resposta negativa. Ao desembarcar, na Praça Mauá estavam postados muitos patrícios que rodearam meu pai, perguntando se tínhamos destino certo, se eu sabia ler e escrever me dariam emprego em suas casas comerciais. Meu pai respondia que o nosso destino era São Paulo e que seguiríamos naquele mesmo dia. Junto à outros patrícios procuramos uma hospedaria onde ficássemos alojados até as 6 horas da tarde. Almoçamos, jantamos e tomando o rumo estação da estrada de ferro Central do Brasil, onde tomamos o comboio que nos levaria à cidade de São Paulo.
Novamente a minha curiosidade fazia com que eu fosse anotando o nome de todas as paragens e lembro-me de alguns nomes que eu achei muito engraçado. Os outros que faziam parte da minha lista não os guardei na memória. A lista foi perdida, porém Cantagalo, Cascadura, Bom Sucesso e Cruzeiro nunca me esqueci. Em Cruzeiro, notei que meus pais já dormiam e eu tiritando de frio encolhi-me junto a minha mãe e adormeci também. As roupas que serviriam de agasalho, minha mãe as tinha colocado em malas à aparte que tinham sido despachadas no Rio como bagagem. Lembro-me quando acordei já nos arredores de São Paulo, estava coberto com o casaco de minha mãe e o paletó de meu pai. Eles aconchegados um ao outro ainda dormiam. Meu pai apenas com colete e minha mãe tinha-se agasalhado com um lenço de merino que quase sempre usava na cabeça, e só mais tarde, anos depois, eu compreendi até onde chegava o amor filial.
Em Portugal fomos informados que no Brasil não fazia frio e eles não se tinham prevenido com roupas apropriadas. Um ano antes o Brasil tinha sofrido uma das maiores geadas e no ano de nossa chegada, o frio começava ainda com muita violência.
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m 30 de junho de 1919 chegávamos em
São Paulo na estação do Norte localizada no bairro do
BRÁS, pouco mais de 6 horas da manhã. Ao desembarque
despedimo-nos quase de todos os companheiros e cada qual
tomou o seu destino, apenas um senhor que já tinha
estado no Brasil, continuou junto à nós porque seu
destino também era a cidade de Ourinhos e foi ele que
orientou meu pai nas providências que deveria tomar.
Como não sabíamos onde se encontravam minhas manas e o Estevam, resolvemos ir para a cidade de Santos e lá aguardá-los para depois nos comunicarmos com o mano Antônio que residia em Ourinhos, a fim de ir ao nosso encontro naquela cidade. Que deslumbramento a viagem para Santos! O " Alto da Serra", a descida por meio de cabos de aço que puxavam o comboio, as cascatas que em catadupas se precipitavam do alto por entre ramagens, as encostas cobertas de manacás floridos, nada ficavam a dever ao panorama que já o Rio de Janeiro nos tinha proporcionado! Que deslumbramento quando a neblina se dissipou e lá embaixo, o mar azul e mais além bem no horizonte, nuvens que mais pareciam flocos monstruosos de algodão, davam a aparência de uma verdadeiro paraíso! Creio que começou aí a admiração e o amor que tomou todo o meu ser pela pátria que toda minha família adotou como sua e que eu sempre bendigo pelo acolhimento que soube nos dar. Achei esquisito o nome da estação ao fundo da serra - Cubatão - ( eu não sabia o que era Batão).
Reiniciamos a marcha com destino a Santos, passando por entre bananais carregados de cachos que quase podíamos pegar com as mãos e como era uma das frutas que eu mais apreciava, mais uma satisfação tomou conta de mim e fui preparando minha gulodice, o que me valeu mais tarde um tremendo desarranjo intestinal , contudo felizmente não passou disso.
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Na nossa chegada a Santos, diversos agentes de hotéis aguardavam os passageiros e nós; pelo nome sugestivo, escolhemos o Hotel Coimbra na rua São Bento e aí aguardamos a chegada de meu mano Antônio, ao qual telegrafamos para que nos viesse encontrar naquele endereço. Logo que nos acomodamos, fomos chamados para almoçar e aí outras dificuldades se apresentaram, visto nenhum de nós aceitar a mistura do feijão com arroz, e preferimos comer o feijão separado e temperado com salada, isto é, vinagre, cebola crua e azeite. O garçom achou graça e começou indiretamente com "gozação" o que levou meu pai a dar-lhe uma reprimenda um tanto enérgica. Após o almoço meus pais foram para o quarto tirar uma soneca e recomendando-me que não me afastasse do hotel pois não conhecendo nada da cidade, poderia perder-me. Disse-lhes que sim e logo que eles me deixaram, dirigi-me imediatamente ao Cais do Porto no intuito de perguntar quando o navio chegaria e se o mesmo atracaria ou se ficaria ao "largo"!
Perguntei a diversas pessoas e algumas achavam graça ao meu sotaque aportuguesado, porém não sabiam informa-me. Fui caminhando admirando as embarcações carregando e descarregando, os nomes engraçados e esquisitos, as suas nacionalidades, as bandeiras tremulando na proa e na ré, e tudo isso aos meus olhos, tornou-se um espetáculo deslumbrante ao ponto de me esquecer de horário e quando me dei conta, tinha chegado ao último armazém que era o de número 16 e tinha andado despercebidamente por aproximadamente cinco horas. Voltei pelo mesmo caminho e ao passar em frente à alfândega lembrei-me de perguntar novamente o dia da chegada do Navio onde vinha o resto da família. Consegui a informação: disseram-me que chegaria no dia 4 de julho e que atracaria no cais em frente ao armazém número 12.
Quando cheguei ao hotel eram 6 horas da tarde e meus pais preocupadíssimos, como não podia deixar de ser, passaram-me uma decompustura chamando-me a atenção para a aflição porque tinham passado.
No dia 2 de julho em uma de minhas saídas, ao regressar ao hotel, encontrei um moço de aparência muito simpática, corado, cabelo à "escovinha" já com alguns fios brancos e bigode médio, bem tratado de pontas para cima. Estava conversando com meus pais, os quais ao verem-me disseram-lhe: - Olha, aí esta o Agostinho! então ele virando-se para mim, estendeu-me os braços envolvendo-me num abraço apertado e perguntou-me se me lembrava dele! Eu meio ressabiado, disse que não, porém achava que deveria ser o mano Antônio. Sentou-me em seus joelhos acarinhando-me como se eu fosse um nenê! Estava feita a apresentação, porém não me senti muito a vontade e notava nele um homem feito e não muito expansivo.
Enquanto aguardávamos a chegada do navio onde meus manos viajavam, meu mano aproveitou esse e o dia seguinte para nos mostrar toda a cidade de Santos, as praias, muito diferentes das atuais, porém a pesar de toda a orla marítima se conservar a maior parte coberta de capim e em alguns lugares mesmo mata rasteira, eram de uma beleza primitiva e só aqui ou alí se viam alguns bangalôs e casinhas térreas, lugar onde atualmente só tem arranha-céus. Não havia portanto poluição e as praias do Gonzaga, Zé Menino e São Vicente, você as percorria e em qualquer lugar era possível entrar naqueles tofos de verdura e se trocar sem ser incomodado por ninguém! A Biquinha de São Vicente, era um passeio obrigatório que a gente fazia de bonde aberto a $100 reis por pessoa. Não havia Ponte Pênsil ligando a Praia Grande. A travessia do canal era feita por uma pequena Balsa que era utilizada por poucos e servia para o transporte de mercadorias para Forte Itaipus e alguns pescadores da Praia Grande.
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cordei de madrugada e não consegui
conciliar o sono até ao amanhecer; estava impaciente
para ir são Cais esperar BONGAYWILLIE, não sabendo a
hora certa da chegada, queria começar desde cedo para
não perder tal acontecimento. Meu mano logo após o
café da manhã, comprou a "TRIBUNA" e
verificando a parte onde constava o "movimento"
do Porto, notou que o BONGAYWILLE já se encontrava
ancorado fora do estuário
aguardando apenas ordem e o prático para atracar em frente ao armazém número 16. Para lá nos dirigimos e só aproximadamente às duas horas da tarde se deu o desembarque. Eu tive a impressão de que tinha transcorrido mais de um ano a nossa separação. O Estevam e Antônia tinham engordado e mostravam uma disposição extraordinária! A Maria coitada, estava muito magra. Disse-nos depois que passou toda viagem doente com enjôos, perdendo por completo o apetite, mas mesmo assim estava muito bonitinha e o seu olhar encantava e chamava a atenção dos moços santistas que, como curiosidade, vinham assistir o desembarque das portuguesinhas como eles as chamavam. A Antônia também se fazia notada pelo seu porte imponente, seus olhos amendoados onde transbordava a alegria e satisfação do nosso reencontro.
Felizes tomamos o rumo do Hotel e eu como sempre "grudei" no Estevam e "bombardeei-o" com perguntas de toda a espécie. Se tinha arrumado alguma namorada, se tinha brigado com alguém, se dançaram? A princípio ele me foi atendendo, aos poucos porém fui ficando tão inconveniente que se não me afasto rapidamente teria levado a minha parte! Era sempre assim, não podíamos ficar separados, mas também não podíamos ficar muito tempo sem encrencarmos e eu sempre levava a pior.
Pernoitamos em Santos e no dia seguinte subimos para São Paulo, ficando hospedados no HOTEL SERRA na rua da Conceição, proximidades das estações ferroviárias - LUZ e SOROCABANA. O Capitão Martins Serra, era amigo particular de meu mano Antônio e ofereceu-nos um jantar especial em honra da família chegada de Portugal. Ficamos o resto do dia percorrendo o centro da cidade que já era naquela época uma cidade muito grande, porém de casinhas térreas principalmente nas proximidades do hotel. No centro, Ruas São Bento, Libero Badaró, Direita, 15 de Novembro, Av. São João, Largo da Sé, etc. Já tinha alguns prédios de 4 e 5 andares quase não havia automóveis. a Praça da Sé estava coalhada de carruagens e os condutores de casaca e cartola. As parelhas que as puxavam, eram igualzinhas e eu ficava pensando em como podiam encontrar animais tão parecidos? Mais um dia de permanência para o mano nos mostrar o Museu do Ipiranga, ainda inacabado, o Monumento à Independência do BRASIL, também construção pois sua inauguração deu-se em 1922, durante os festejos do centenário da Independência. Lembro-me também que meu mano nos levou ao Mercado Velho perto do Tamanduateí para comprar diversos objetos e frutas e assistimos as encrencas dos condutores de carroções de carga, quase todos de nacionalidade Italiana.
Eu ficava assustado com o palavreado e as xingações de uns aos outros! Pensava que sairiam brigas a torto e direito e fazendo ver isso ao mano Antônio, riu e disse:
- Isso é uma italianada muito atrasada e ficam maltratando-se só com palavras, briga no duro não sai, já os conheço muito bem, logo a noite juntam-se todos e bebem e comem à vontade. É gente boa e isso não passa de fanfarronada.
No dia 07 de julho de 1919, logo cedo fomos acordados e depois de tomarmos café, nos dirigimos à Estação da Sorocabana, antiga, ainda hoje existe esse prédio térreo na rua Brigadeiro Tobias. Às oito horas da manhã, tomamos o trem e iniciamos a nossa viagem com destino ao INTERIOR. Eu como sempre, não queria sentar-me e quando podia escapulir, lá ia para a plataforma do vagão onde ficava à vontade para apreciar a paisagem que ao longo da estrada ia descortinando. Fazia um frio danado e o Estevam por diversas vezes me fez entrar e tomar acento junto com ele, isto depois de umas "broncas".
Deslumbrei-me com o Tietê que naquele tempo não era o Rio sujo de hoje. Barcaças carregando areia e outros materiais subiam e desciam o seu curso e a locomotiva resfolegando, serpenteava em suas margens até ao ponto em que ela se desviava para a esquerda e o rio para a direita, procurando Sant'ana do Parnaíba. Lembro-me que no antigo leito Sorocabana, existia um pequeno túnel nas imediações de MAYLASCK. Recordo-me da cidade de Sorocaba que já era muito grande e Industrial; fábricas de tecidos, cimento, frutas em geral, principalmente laranjas e uvas, abasteciam a cidade de São Paulo. Só mais tarde São Roque e Jundiaí lhe tirariam esse privilégio. Botucatú também merecia destaque com seu casario na encosta da serra do mesmo nome, era sede de Bispado e possuía diversos colégios, seminários, etc.. Em seguida Cerqueira César e Avaré. Avaré chamou minha atenção pois era o nome do Navio que nos trouxe e que tinha sido de nacionalidade alemã e que foi entregue ao Brasil como parte de pagamento por este país fazer parte da guerra ao lado dos aliados.
Chegamos finalmente na cidade de Ourinhos, ponto terminal de nossa viagem e residência de meu mano Antônio na Fazenda FURNAS de propriedade do Cel. Jacinto Ferreira de Sá. O Antônio apesar dos seus 34 anos de idade e mesmo sendo muito disputado pelas moças mais atraentes das fazendas circunvizinhas, conservava-se solteiro e hospedava-se na casa de um primo de segundo grau, Martinho Pinto Cairrão. A sua esposa a quem chamávamos "MARIA DO MARTINHO", tinha por toda a família uma estima especial enquanto meus manos Antônio e José estiveram sós no Brasil. Cuidou deles como se fosse uma irmã.
Foi para sua casa que às 10 horas da noite desse mesmo dia, nos dirigimos e lá ficamos até nos fixarmos nas FURNAS. O Antônio ,com seu jeito meio quietão, não tinha avisado os manos José e Joaquim da nossa chegada dizendo que desejava fazer-lhes uma surpresa.
O Joaquim residia na Fazenda Lageadinho e o Martinho foi lá convidá-lo dizendo-lhe que iria fazer uma festinha no dia seguinte e que os esperava sem falta. Teria baile com sanfonista de Cândida e seus filhos: Palmira, Aurora e Raul! No dia seguinte, estava eu apreciando os movimentos dos colonos e admirando os negrinhos que para mim era novidade, quando deparei com duas montarias, em uma das quais vinha um cavaleiro e em sua garupa uma menina por sinal muito bonitinha de uns 6 à 7 anos e na frente um menininho de 2 anos, pouco mais ou menos. Na outra uma senhora ainda moça, vistosa e um pouco gordinha que também estava acompanhada de uma menina de 4 ou 5 anos. O cavaleiro, homem alto, garboso, vestido de terno branco, polainas lustrosas ajudou a descer a menina a qual pegou o menino e o cavaleiro fez o cavalo rodopiar descendo de um pulo sem colocar o pé no estribo. Nesse instante veio-me à lembrança que pelo modo de montar, deveria ser o mano Joaquim e sua família. Não esperei mais nada e entrei no pátio da casa gritando que o Joaquim e toda a família tinham chegado! Foi uma festa esse encontro depois de beijos e abraços, juntei-me aos meus sobrinhos e a Palmira logo se acamaradou-se comigo.
A Aurora mexia comigo e fugia baixando a cabeça e me olhando de lado. O Raul muito pequenino peguei-o no colo e depois passei-o para os ombros, pulando com ele como se eu fosse um cavalinho. Grande dia aquele em que tudo era festa! O Martinho, convidou a colônia para o baile. Era composta quase na totalidade de famílias italianas onde se destacavam os TERÇARIOL, os PETRUCCI, os TOCALLIM e outras que no momento não me lembro de seus nomes. Sei que era um povo alegre, cheio de vida, saudáveis e de uma mocidade exuberante! No seu meio muitas moças , de verdadeiros tipos de beleza! Principalmente uma menina de nome Emília que nesse tempo contava 12 ou 13 anos e que mais tarde se tornaria a esposa do mano Antônio. Foram 3 dias de festas e como meu mano José residisse em Palmital, para lá nos dirigimos a fim de visita-lo, sua esposa e filhos. Na nossa chegada que ele não esperava, visto não ter sido avisado, deu-se um caso pitoresco que passo a relatar.
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eu mano Antônio que nos
acompanhava, chamou-nos a parte, a mim e Estevam,
mostrou-nos a casa comercial e também de residência do
mano José e disse-nos:
-"Vocês vão na frente, entram e pedem um "Mata Bicho", se ele perguntar quanto, o Estevam dirá que ele poderá pôr $200 reis cada um. Perguntamos porém o que era o tal "Mata Bicho" e
ele respondeu que era a mesma coisa que aguardente, só em vez de ser de uva, era de cana de açúcar."
O Estevam chegou e no seu linguajar aportuguesado, foi dizendo:
-Ponha $200 reis de "mata-bicho" para cada um. O José que estava acompanhado de um sócio e com um menino no colo, olhou-nos de alto a baixo com certa curiosidade perguntou-nos: Mas $200 para cada um, ou para os dois? $200 para cada um respondeu o Estevam. Bom nesse caso vocês querem, vá lá. Pegamos os copos e de um trago só, ingerimos o conteúdo por sinal achei que em vista da nossa aguardente, era muito fraca! Mais um vez o José Conde nos olhou com muita curiosidade e perguntou:
Que vocês são patrícios eu já sei, estão chegando agora de Portugal? Vieram só os dois ou têm mais família? Do jeito que vocês tomaram a "pinga", mostraram que vocês estão muito fortes, daqui a 6 meses se continuarem a fazer isso, ficarão embriagados! Dissemos que estávamos chegando e que tínhamos parentes em Palmital. Não sabíamos onde moravam e por isso entramos alí para pedir informações. Pois não, respondeu ele:
Qual é o nome? Conheço todo "mundo" aqui e creio poder dar essas informações. - Engraçado, disse ainda ele, o restante da minha família também está para chegar; devem vir todos, meu pai, minha mãe, dois manos e duas manas.
Tenho a impressão de que meus dois manos deverão ser da vossa idade pouco mais ou menos... terminou aí a nossa farsa, não conseguimos levar mais a frente a brincadeira e começamos a rir, também nesse instante entravam meu pai, mãe, o Antônio, a Maria e Antônia enfim todos! Que alegria se apossou de toda família! Havia 8 ou 9 anos que não nos abraçávamos e depois de termos sido apresentados à Elvira sua esposa, ao Manuelzinho que nesse tempo tinha 3 anos e era o menino mais lindo que eu já tinha visto, cabelinho louro, claro, coradinho e engraçado! Como eu gostei dele e essa estima deveria se prolongar para sempre em vez de o considerar como sobrinho, tive e o tenho até hoje como um irmão mais novo e muito querido! Que me perdoem os outros sobrinhos a quem estimo também.
A Elvira minha cunhada também era de uma beleza extraordinária e de uma bondade a toda prova e sempre dando mostras até hoje. Todos a estimamos muito e creio que continuaremos a estimá-la até o fim. Tinha naquela data, aproximadamente 20 anos e já tinha o segundo filho, o ARMENE que ainda não andava. A festa de recepção continuou e os comes e bebes foram fartos e gostosos! Eu pensava, puxa, isto aqui é que é BRASIL? Que maravilha! Ao cabo de 2 ou 3 dias, a família deveria regressar à Ourinhos, onde ficaria ao menos um ano na Fazenda das Furnas, residência do mano Antônio até se aclimatar e ao mesmo tempo aprender à trabalhar as terras do sistema brasileiro. Tínhamos vendido nossas propriedades em Portugal e iríamos comprar um sítio mais tarde, o que fizemos um ano depois em Pau D'Alho, hoje Ibirarema. Meu mano José já não deixou que me levassem e eu fiquei morando com ele em Palmital durante pouco mais ou menos 6 meses.
As saudades de meus pais fizeram com que me juntasse a eles em Ourinhos, onde mais tarde me empregaria numa panificadora com um bar anexo onde trabalhava com ordenado mensal de $30 mil reis.
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patrão, um patrício transmontano,
completamente analfabeto, fazia a entrega de pão na
cidade e na maioria das vezes chegava embriagado em cima
do carrinho. O cavalo que o puxava, trazia-o são e salvo
até em casa e alí a esposa Dona Conceição, que era
uma " Santa e Mártir", junto com um cunhado,
tiravam-no do carrinho e o deitavam na cama.
Nesta operação ele os maltratava, xingando-os com palavrões do mais baixo calão! A mim, verdade seja dita nunca me faltou ao respeito e dizia que só eu é que prestava naquela casa. Revoltado porém com as injustiças aos seus familiares, um Domingo, pedi-lhe licença para ir ao cinema e sem que ele pressentisse, juntei as minhas coisas, fiz um pacote e peguei o caminho de minha casa localizada na Fazenda de Furnas de propriedade do "Cel" Jacinto Ferreira e Sá, onde moravam meus pais, e os manos Estevam, Antônia e Maria.
Fui rezando pelo caminho para evitar as assombrações, que diziam aparecer quando porteira, que ficava no meio da mata na entrada da Fazenda, batesse no mourão. Procurei um pau e sem me incomodar que o gado saísse ou entrasse, abri a porteira e estaquei-a .O pau no entanto era podre e mal tinha dado uns passos, ouvi-a bater "PAN... PAN...PAN...". Sem olhar para trás, desembestei numa corrida louca! Tive a impressão de que qualquer coisa estranha corria no meu encalço. Cheguei esbaforido em casa e a família já estava deitada porém acordada. Fui bater na janela do quarto de Estevam que perguntou quem estava batendo. Sou eu, o Agostinho. Grande admiração de todos por chegar a uma hora daquelas e sozinho.
O Estevam abriu a janela e como era baixa, entrei por ali mesmo! Meu pai que naquele tempo já era doente, deixou toda a administração a cargo de Antônio e mesmo porque o mano estava a par dos costumes daqui. O Antônio me perguntou qual era o motivo de eu ir assim de noite e foi aí que achei que tinha de mentir.
-Olha Antônio, o "seu" Adelino, como sempre se embebedou e maltratou todo o mundo e à mim me chamou de "filho da puta"!
-O quê? Ele disse isso? Amanhã depois do almoço, nós iremos à Ourinhos e mostrarei para aquele cachorro quem é o "FILHO DA PUTA".
Comecei a chorar, pensando o que eu iria fazer quando chegasse lá e na presença dele sustentar o que não era verdade.
Não dormi durante toda noite e quando Estevam me perguntava o que eu tinha, pois ficava suspirando e revirando na cama, para desculpa tornei a repetir e disse-lhe que tinha visto uma ASSOMBRAÇÃO muito grande correndo atrás de mim desde que a porteira se fechou! . Outra mentira.
No dia seguinte, lá pelas 9 horas da manhã, avistei ao longe o carrinho de entrega de pão e como não podia deixar de ser, o "seu" Adelino em cima. Nova "tremedeira" e envergonhado fiquei meio atrás da porta, só estavam em casa meus pais, os demais já tinham ido trabalhar. Desceu do carrinho e mostrando grande satisfação, foi dizendo.
-Ainda bem que você está aqui, procuramos você quase a noite toda e só vendo a aflição de todos nós. A Conceição perdeu até os sentidos de tão aflita pois ela estima o Agostinho como filho. Meu pai então interferiu e lhe disse nós nunca fomos acostumados com palavrões e como o senhor o chamou de "Filha da Puta", não podendo resistir e mesmo envergonhado das pessoas que ouviram, achou que o melhor a fazer era vir embora para a casa, onde achou o nosso apoio e ao mesmo tempo exijo que nos peça desculpas. O "seu" Adelino que aquele dia não estava embriagado, tomou ares de espanto e falou.
Agostinho, você deve estar enganado, creio que eu nunca maltratei você e se por acaso o fiz, devia estar um tanto "tocado"! Deus me livre de ofender a sua família principalmente o Antônio Conde a quem sempre respeitei. E dirigindo-se a meu pai disse-lhe:
-Senhor Manoel e Dna. Palmira. Peço-lhes perdão por uma coisa que, se eu fiz, foi inconscientemente e vamos deixar isso por nada: o Agostinho vai voltar comigo, porque eu não posso passar sem ele. Passarei a pagar $40 mil reis por mês, cada 15 dias lhe darei um Domingo de folga para vir visitá-los e poderá ir ao cinema todos os domingos por minha conta e às touradas quando vierem à Ourinhos.
Fiquei radiante com a proposta e ao mesmo tempo pelo desfecho feliz da contenda tendo eu sido o ganhador. Tomamos café e eis me de volta a Ourinhos. A dna. Conceição recebeu-me de braços abertos e ficou satisfeitíssima pelo meu regresso. Sempre me estimou muito e quero aqui deixar registrado uma prova de grande estima por ela demostrada.
Nos primeiros dias que eu fui morar com eles e logo depois de minha vinda de Palmital, penetraram em meus pés os tais bichinhos a que davam o nome de "bicho de pés", em Palmital já tinha tido alguns e meu mano José os tirou sem me machucar, eu tinha porém um medo danado e também tinha vergonha de pedir para que alguém os tirasse. Eu não tinha coragem de tirar sozinho. Resultado: pés inchados, roxos, não cabiam mais nos sapatos. A noite ao deitar rezava pedindo ao anjo da GUARDA que me fizesse desaparecer os tais bichos sem dor. Não fui atendido no meu pedido e tive que comprar alpargatas e mesmo assim parecia que pisava em ovos.
A dona Conceição chamou-me de parte e me perguntou o que tinha nos pés, se seria reumatismo teria que me tratar. Todo envergonhado, disse-lhe que deviam ser "bichinhos de pés" e que eu não sabia tirá-los! Ela então me disse: Agostinho, logo à noite ao deitar você lavará os pés em água bem quente, tenho um remédio que você tomará e creio que amanhã todos os bichos desaparecerão! Assim fiz, tomei o remédio que ela me levou que por sinal era delicioso, e logo em seguida fui acometido de sono tão pesado que só acordei no outro dia às 8 horas, pouco mais ou menos. Os meus pés tinham desinchado, não sentia mais dores nem coceira! Remédio santo aquele que Dona Conceição me fez tomar. Perguntou-me como eu estava passando e ela mesmo verificou o resultado. Aconselhou-me que logo que eu sentisse alguma coceirinha, a avisasse para ela tomar as providências necessárias! Só meses depois é que ela me disse qual tinha sido o remédio que tão bons resultados tinha dado: "MEIO COPO DE VINHO DO PORTO (ADRIANO RAMOS PINTO)." Aprendi com ela a operação para a remoção dos "taizinhos", e deixei de incomodá-la.